Improviso do grande Luiz Gonzaga, rei do baião, quando cantou “Apologia ao jumento — o jumento é nosso irmão”, composição em parceria com José Clementino e que é muito, muito engraçada.
O jumento é nosso irmão, quer queira ou quer não. O jumento sempre foi o maior desenvolvimentista do Sertão. Ajudou o homem na lida diária, ajudou o homem, ajudou o Brasil a se desenvolver. Arrastou lenha, madeira, pedra, cal, cimento, tijolo, telha. Fez açude, estrada de rodagem. Carregou água pra casa do homem. Fez a feira em cima de montaria. O jumento é nosso irmão. E o homem, em retribuição, o que é que lhe dá? Castigo, pancada, pau nas pernas, pau no lombo, pau no pescoço, pau na cara, nas orelhas. O jumento é bom, o homem é mau. E quando o pobre não agüenta mais o peso de uma carga e se deita no chão, vocês acham que o homem chega e ajuda o bichinho a se levantar? Hum! Pois sim! Faz é um foguinho debaixo do rabo dele. O jumento é bom. O jumento é sagrado. O homem é mau. O homem só presta pra botar apelido no jumento. O pobrezinho tem apelido que não acaba mais: babau, gangão, bregueço, imagem do cão, mosqueiro, corneteiro, seresteiro, sineiro, reloje… Ele dá a hora certa do sertão. Tudo isso é apelido que o jumento tem: astronauta, professor, estudante, advogado das bestas. É chamado estudante porque quando o estudante não sabe a lição da escola, o professor grita logo: “Você não sabe porque você é um jumento”. E o estudante, pra se vingar, botou o apelido no jumento de professor, porque o professor ensina a ler de graça. Pois sim. Quem ensina a ler de graça é o jumento. É assim: a, e, i, o, u, u, ipsilone, ipsilone… Só não aprende a ler quem não quer. Esse é o jumento nosso irmão. Animal sagrado. Serviu de transporte pra Nosso Senhor quando ele ia para o Egito. Quando Nosso Senhor era pirritotinho. Todo jumento tem uma cruz nas costas, não tem? Pode olhar que tem. Todo jumento tem uma cruz nas costas. Foi ali que o menino santo fez um pipizinho, por isso ele é chamado de sagrado. Jumento meu irmão, o maior amigo do Sertão. Ele é cheio de presepada, sim senhor. Uma vez ele me fez uma, menino, que eu não me esqueci mais. Quando dá as primeiras chuvas do Sertão, a gente planta logo um milhozinho num munturo da casa da gente porque dá ligeiro e é milho doce. Dá ligeirinho, ligeirinho. O jumento cismou de ser meu sócio. Eu disse: “Eu pego ele…” Quando ele invadiu minha roça, eu preparei uma armadilha, cheguei perto dele e disse: “Comendo meu milho, hein? Vou lhe pegar!” Ele balançou a cabeça, ligou as antenas, troceu o rabo, troceu, troceu, troceu, deu corda e disparou. Deu um pulo tão danado na cerca que nem triscou na minha armadilha. Correu uns dez metros, deu meia-volta, olhou pra mim e me gozou: “Seu Luizzzz! Seu Luiz, comi seu mi e como, e como, e como.” Fi da peste, comeu mesmo, mas eu gosto dele porque ele é servidorzinho que é danado. Animal sagrado, jumento meu irmão, eu reconheço o teu valor, tu és um patriota, tu és um grande brasileiro. Eu tô aqui jumento, pra reconhecer o teu valor meu irmão!
Em viagem, paramos no caminho para registrar essa árvore
carregada de… garças. Legal, não? Clique na imagem para ampliá-la.

Sertão, pôr-do-sol. Foto: Isabela.
Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
(Fernando Pessoa)
Quando você me disse que Lula tem um dedo torado eu não acreditei, pensei que fosse brincadeira. Depois, olhando as revistas que você me deu, vi uma foto em que mão dele aparece e falta um dedo mesmo. Aí contei a pai essa história do dedo torado e ele disse que era mentira, invenção do povo… Ele só acreditou quando veio aqui em casa e eu mostrei a foto.

A catingueira é uma leguminosa e não cresce muito, não: fica uma arvoreta. É bastante resistente e adaptada ao clima semi-árido — já vi algumas crescendo em pequenas rochas! Mesmo durante boa parte da estação seca, ainda fica verde e viçosa. Seria um bom alimento para os animais se o cheiro de suas folhas não os afastasse.
Os galhos de catingueiras que estão na carroça — na foto abaixo — serão utilizados na preparação da ração para o gado. Não parece uma big salada?

Eles serão triturados e misturados à pedaços de palma, leucena e gliricídia, bem como farelo de trigo, para dar um toque. Acompanhados de outros ingredientes, seu cheiro não sobressai. Acho que o gado nem percebe. Aí está o resultado:

Agora, é só chamar a turminha para comer…

– Não está delicioso, garotas?
– Mooooom!!!! — elas respondem em uníssono.
Quase todo mundo vai à feira-livre na sede do município. É um dia bom para rever os conhecidos, saber as novidades e ter um dedinho de prosa entre uma compra e outra.
Dois compadres se encontram:
– Ô rapaz! Tudo bom? O que é que tem feito?
– Muito rastro1… ando tão atacado2 ultimamente, trabalhando muito. Agora, na seca, tenho que preparar a ração todo santo dia. E o compadre sabe que uso pouco concentrado senão, com o preço do leite tão baixo, não sobra nem o dinheiro da feira. Praticamente sozinho, só um filho me ajudando… o dia é curto pra tanta coisa. Ando tão desaconsoado3… Mas, mudando de pato pra ganso, Primavera já pariu? Deu boinha de leite?
– Ah, foi uma boa compra que lhe fiz. Pariu uma bezerra linda. Está dando 10 litros.
– Boa, boa… Eu estou com um problema sério de carrapato… Não sei mais o que faço. Nem o veneno os bichos respeitam mais. Estão resistentes.
– Faça catação até o final do surto, compadre. É ter paciência, deixar o gado no chão batido para que as larvas que caem não se alojem no capim. A novilha que lhe comprei já está sem carrapato. Foram quarenta dias de catação. Se tivesse soltado a bichinha no pasto daquele jeito, teria contaminado os outros animais. Toda vez que aparece carrapato, separo o animal até por sessenta dias e cato até o surto acabar.
– E a mosca-dos-chifres tem conseguido controlar?
– Você nem imagina o que descobri! A gliricídia é repelente! Quando o surto vem, pulverizo o gado todos os dias com uma mistura de água, detergente neutro e o sumo da gliricídia. De primeiro eu aplicava com óleo de eucalipto, que é muito bom também, mas agora que descobri a gliricídia foi melhor porque não preciso mais comprar o óleo. É aplicando e as moscas caindo. Além disso, durante todo o ano, dou uma mistura contendo alho e enxofre.
– O compadre inventa… vou barrunfar4 esse preparado também. E ainda está dando catingueira5 ao gado?
– Se estou! Misturo na ração com palma e gliricídia ou leucena e as vacas nem sentem. Comem tudo, porque gado não cospe… A palma e a silagem rendem e, ainda por cima, já que a catingueira tem muito tanino, ajuda no controle dos vermes também.
– Eu segui seu conselho e não estou mais derrubando as árvores do pasto. Aqui e acolá deixo um pé de juazeiro, catingueira, umbuzeiro… E já reparei que as folhas que caem das árvores engordam a terra. Debaixo das árvores o capim cresce mais. E o pasto fica agradável, uma fresca boa…
– É verdade. Mas olhe, quando o compadre tiver uma fuga6 apareça pra gente prosar um pouco.
– Qualquer dia desses dou um pulo por lá7 para me enterter8 um pouco.
* * *
1 - Expressão que quer dizer “trabalhando muito”
2 - Ocupado
3 - Corruptela de desacorçoado que vem de descoroçoar (perder a coragem, desanimar, tirar o ânimo)
4 - Corruptela de borrifar
5 - Leguminosa. Planta da caatinga. Depois posto fotos.
6 - Um tempo, possivelmente corruptela de folga
7 - Dar uma passadinha, fazer uma visita
8 - Corruptela de entreter

Não sei seu nome completo, mas sei que é viúvo, vive sozinho em seu próprio terreno — esse lugar aí da foto — e procura uma companheira. Mas, pelo visto, vai demorar para encontrar pois, normalmente, as mulheres não gostam de morar no rural. Se ele tivesse uma casa na rua — como se diz por aqui para designar a cidade mais próxima — talvez fosse mais fácil.
Às vezes, também faz uns bicos como cerqueiro e seu trabalho sai bem-feito. Chega para o serviço em um jumentinho, tão pequenininho, que não sei como agüenta um homem no lombo. Mas Tota é magro e baixinho… Outro dia, avistei, bem ao longe, esse jumentinho chegando. Era bem cedo, ainda. Corri, peguei o binóculo e fui espiar. Foi aí que vi Tota montado no bichinho.
Aqui, o fetiche da maioria das pessoas é ter moto e celular. Tota não foge à regra e já comprou o celular. Primeiro ele pediu, aí demos um Oi a ele. Mas ele queria da Vivo, que pega melhor o sinal, daí deve ter vendido o outro e comprou da marca que queria. Quem sabe, agora, esteja querendo uma moto… Sorte do jumentinho.
Há algum tempo atrás ele teve um problema nas vistas — como se diz por aqui. Deve ser por isso que está usando óculos escuros. A luminosidade no sertão é muito forte.
E já gosta de uma prosa… Se a gente ficar na fazenda no final de semana, é quase certeza receber sua visita. Aparece todo arrumado, é outro Tota.


