Aprendendo a Aprender


Poemas de Natal de Manuel Bandeira
23 Dezembro 2008, 11:02 am
Arquivado em: *Isabela*, Natal, Poesia

Natal

Penso no Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh’alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade… A voz dos sinos… A cadência
Do rio… E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho… Evoco-te… Componho
O ambiente cuja luz os teus olhos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida…
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal…
Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minh’alma a teus pés humilhados de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos…
Ampara a minha fronte, e que minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana — pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
Que Madalena viu nos olhos de Jesus…

“A cinza das horas” Clavadel, 1913

* * *

Natal Sem Sinos

No pátio a noite é sem silêncio
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

………………..Ah meninos sinos
………………..De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da Igrejinha de Boa Viagem.

………………..Outros sinos
………………..Sinos
………………..Quantos sinos!

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
De quando eu menino.
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos
De quando eu menino,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.

“Opus 10″ Rio, 1952

* * *

Natal 64

…………………………………..A Moussy

Ao deitar-me para a dormida,
Desejara maior repouso
Do que adormecer, e nao ouso
Desejar o jazer sem vida.

Vida é possibilidade
De sofrimento; quando menos,
Do sofrimento da saudade,
Com seus vãos apelos e acenos.

Mas a não haver outra vida,
Aos que morrem pode a saudade
Dar-lhes, senão a eternidade,
Um prolongamento de vida.

Então, por que neste momento
Me sinto tão amargo assim?
E a saudade me é um tal tormento
Se estás viva dentro de mim?

“Estrela da tarde” 1960

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Bachelard
13 Novembro 2008, 3:24 pm
Arquivado em: *Isabela*, Poesia

…Sozinho na noite, com um livro iluminado por uma candeia – livro e candeia, dupla ilha de luz, contra duplas trevas do espírito e da noite – eu estudo. Sou apenas o sujeito do verbo estudar.
Pensar, não ouso.
Somente os filósofos pensam antes de estudar. Mas a candeia se apagará antes que o livro difícil seja compreendido. Nada se deve perder da candeia, das grandes horas da vida estudiosa. Se levanto os olhos do livro para olhar a candeia, ao invés de estudar, eu sonho. Então, as horas ondulam no vale solitário. As horas ondulam entre a responsabilidade de um saber e a liberdade dos devaneios; esta extremamente fácil liberdade de um homem solitário.

La flamme d’une chandelle (Gaston Bachelard)

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Fernando Pessoa
2 Outubro 2008, 11:28 am
Arquivado em: *Isabela*, Leituras, Poesia

I – Primeira Parte: Brasão

Bellum sine bello

[...]

TERCEIRO / O CONDE D. HENRIQUE

Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.

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Aprender como Walt Whitman
2 Agosto 2008, 5:13 pm
Arquivado em: *Isabela*, Leituras, Poesia

Ao começar os meus estudos, o passo inicial me agradou tanto,
A mera tomada de consciência dos fatos, essas formas, o poder do movimento,
O menor dos insetos ou animais, os sentidos, a vista, o amor,
Digo que o primeiro passo me assombrou e me deu tanto prazer
Que eu nem sequer teria passado, e dificilmente teria desejado passar além daquele
………………………………………………………………………………………[ponto,
Mas quereria parar ali e vaguear o tempo inteiro, cantando tudo aquilo em cantos
.....................................................................................................................[extáticos.

[...]
Nós, desejosos aprendizes de tudo, professores de tudo, amantes de tudo.
Assistimos as estações que se doam e passam,
E temos dito: por que não deveria um homem ou uma mulher fazer
tal qual as estações, transbordando o mesmo tanto de si mesmos?

Walt Whitman, Folhas de relva, tradução de Luciano Alves Meira.



Defensa de Violeta Parra
4 Abril 2008, 5:13 pm
Arquivado em: *Isabela*, Español, Figuras, Poesia

Autor: Nicanor Parra

Dulce vecina de la verde selva
arpillerista azul, verde y granate
Grande enemiga de la zarzamora
Violeta Parra.

Jardinera
locera
costurera
Bailarina del agua transparente
Árbol lleno de pájaros cantores
Violeta Parra.

Has recorrido toda la comarca
Desenterrando cántaros de greda
Y liberando pájaros cautivos
Entre las ramas.

Preocupada siempre de los otros
Cuando no del sobrino
de la tía
Cuándo vas a acordarte de ti misma
Violeta Parra.

Tu dolor es un círculo infinito
Que no comienza ni termina nunca
Puesto que siempre así to lo quieres
Anfora plena.

Cuando se trata de bailar la cueca
De tu guitarra no se libra nadie
Hasta los muertos salen a bailar
Cueca valseada.

Cueca de la Batalla de Maipú
Cueca del Hundimiento del Angamos
Cueca del Terremoto de Chillán
Todas las cosas.

Ni bandurria
ni tenca
ni zorzal
Ni codorniza libre ni cautiva

solamente tú
tres veces tú
Ave del paraíso terrenal.

Charagüilla gaviota de agua dulce
Todos los adjetivos se hacen pocos
Todos los sustantivos se hacen pocos
Para nombrarte.

Pero resulta que los secretarios
Andan con la cabeza para bajo
Y te declaran la guerra a muerte
Violeta Parra.

Porque tú no te compras ni te vendes
Porque tú no te vistes de payaso
¡Porque tú los aclaras en el acto!
Viola volcanica.

Tu corazón se abre cuando quiere
Tu voluntad se cierra cuando quiere
Y tu espirito sopla cuando quiere
Aguas arriba!

Basta que tú los llames por sus nombres
Para que los colores y las formas
Se levanten y anden como Lázaro
En cuerpo y alma.

Cómo van a quererte me pregunto
Cuando son unos tristes funcionarios
Grises como las piedras del desierto
¿No te parece?

En cambio tú Violeta de los Andes
Flor de la cordillera de la costa
Eres un manantial inagotable
De vida humana.

¡Nadie puede quejarse cuando tú
Cantas a media voz o cuando gritas
Como si te estuvieran degollando
Violeta Parra!

Lo que tiene que hacer el auditor
Es guardar un silencio religioso
Porque tu canto sabe adónde va
Perfectamente.

Rayos son los que salen de tu voz
Hacia los cuatro puntos cardinales
Vendimiadora ardiente de ojos negros
Violeta Parra.

Se te acusa de esto y de lo otro
Yo te conozco y digo quién eres
¡Oh corderillo disfrazado de lobo!
Violeta Parra.

Yo te conozco bien
hermana vieja
Norte y sur del país atormentado
Valparaíso hundido para arriba
¡Isla de Pascua!

Sacristana cuyaca de Andacollo
Tejedora a palillo y a bolillo
Arregladora vieja de angelitos
Violeta Parra.

Los veteranos del Setentaynueve
Lloran cuando te oyen sollozar
En el abismo de la noche oscura
¡Lámpara a sangre!

Cocinera
niñera
lavandera
Niña de mano todos los oficios
Todos los arreboles del crepúsculo
Violeta Parra.

Yo no sé qué decir en esta hora
La cabeza me da vueltas y vueltas
Como si hubiera bebido cicuta
Hermana mía.

Dónde voy a encontrar otra Violeta
Aunque recorra campos y ciudades
O me quede sentado en el jardín
Como un inválido.

Para verte mejor cierro los ojos
Y retrocedo a los días felices
¿Sabes lo que estoy viendo?
Tu delantal estampado de maqui.

Tu delantal estampado de maqui
¡Río Cautín!
¡Lautaro!
¡Villa Alegre!
¡Año mil novecientos veintisiete
Violeta Parra!

Pero yo no confío en las palabras
¿Por qué no te levantas de la tumba
A cantar
a bailar
a navegar
En tu guitarra?

Cántame una canción inolvidable
Una canción que no termine nunca
Una canción no más
una canción
Es lo que pido.

Qué te cuesta mujer árbol florido
Álzate en cuerpo y alma del sepulcro
Y haz estallar las piedras con tu voz
Violeta Parra

DEFENSA DE VIOLETA PARRA 5:34
Album: Recordando a Chile (Una chilena en París)
Ano: 1965
Autor do poema e voz: NICANOR PARRA
Violão: Violeta Parra



Deixa rugir o Caos atônito
21 Março 2008, 1:32 am
Arquivado em: *Isabela*, Poesia

Desde o ano 2000, com o objetivo de fomentar o apoio aos poetas jovens, volver ao encantamento da oralidade e restabelecer o diálogo entre a poesia e as demais artes, a UNESCO celebra em 21 de março o Dia Mundial da Poesia com diversos atos em todo o mundo.

Este site participa com o poema de Mário Quintana “Aula inaugural” que apresenta a poesia como defesa contra a angústia de viver e diz: “Fora da poesia, não há salvação”.

AULA INAUGURAL

Mário Quintana (1906-1994)

É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis como na guerra do Paraguai…
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia, não há salvação.
A poesia é dança e a dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E,
Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança.
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante de tua cova.
Tece coroas de rimas…
Enquanto o poema não termina
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas…)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas…)
Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta.
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo de teus pés,
Deixa rugir o Caos atônito…

Mário Quintana, Apontamentos de história sobrenatural. Porto Alegre: Globo, 1975, p.24-25.



Mais Vinicius de Moraes
15 Março 2008, 11:50 pm
Arquivado em: *Isabela*, Poesia, Sentimentos

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

* * *

Esta versão do poema foi declamada pelo autor no disco Vinicius de Moraes – Antologia Poética com a participação de Edu Lobo tocando a música Canto triste, dele e de Vinicius.



Mulher e poesia – Vinicius de Moraes
5 Março 2008, 9:49 am
Arquivado em: *Isabela*, Mulher e poesia, Poesia

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Jeanne Hebuterne (1898-1920), 1919.
Amedeo Modigliani (1884-1920)

A BRUSCA POESIA DA MULHER AMADA

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente…
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados…

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Rio de Janeiro, 1938

in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “A saudade do cotidiano”