Natal
Penso no Natal. No teu Natal. Para a bondade
A minh’alma se volta. Uma grande saudade
Cresce em todo o meu ser magoado pela ausência.
Tudo é saudade… A voz dos sinos… A cadência
Do rio… E esta saudade é boa como um sonho!
E esta saudade é um sonho… Evoco-te… Componho
O ambiente cuja luz os teus olhos douram.
Figuro os olhos teus, tristes como eles foram
No momento final de nossa despedida…
O teu busto pendeu como um lírio sem vida,
E tu sonhas, na paz divina do Natal…
Ó minha amiga, aceita a carícia filial
De minh’alma a teus pés humilhados de rastos.
Seca o pranto feliz sobre os meus olhos castos…
Ampara a minha fronte, e que minha ternura
Se torne insexual, mais do que humana — pura
Como aquela fervente e benfazeja luz
Que Madalena viu nos olhos de Jesus…
“A cinza das horas” Clavadel, 1913
* * *
Natal Sem Sinos
No pátio a noite é sem silêncio
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?
………………..Ah meninos sinos
………………..De quando eu menino!
Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da Igrejinha de Boa Viagem.
………………..Outros sinos
………………..Sinos
………………..Quantos sinos!
No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
De quando eu menino.
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos
De quando eu menino,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.
“Opus 10″ Rio, 1952
* * *
Natal 64
…………………………………..A Moussy
Ao deitar-me para a dormida,
Desejara maior repouso
Do que adormecer, e nao ouso
Desejar o jazer sem vida.
Vida é possibilidade
De sofrimento; quando menos,
Do sofrimento da saudade,
Com seus vãos apelos e acenos.
Mas a não haver outra vida,
Aos que morrem pode a saudade
Dar-lhes, senão a eternidade,
Um prolongamento de vida.
Então, por que neste momento
Me sinto tão amargo assim?
E a saudade me é um tal tormento
Se estás viva dentro de mim?
“Estrela da tarde” 1960
Os trabalhos com temas natalinos do artista plástico, pintor e ilustrador JAN HÍSEK (1965, Praga) são uma forma bastante diferente de explorar o Natal, sem brilhos, verdes e vermelhos coca-cola. Um deles, o Madonna with blackie (detalhe abaixo) é particularmente interessante e sempre tive vontade de usá-lo como banner no mês de dezembro. Mas, para acomodar a imagem ao formato pré-determinado do tema só poderia inserir um detalhe. Três trabalhos de Hísek foram testados e o que melhor se adaptou foi Zjevení que significa Revelation, Apocalipse. Mas, quando encaixado, restou apenas uma parte de um homem que aponta para um anjo e isso me pareceu, embora com a mão esquerda, uma saudação bem conhecida e rechaçada (com razão). Quando o homem foi apagado, a preocupação foi modificar um trabalho artístico. Além disso, o banner escureceu o blog. Uma pena.
A opção rápida, mas bonita, foi uma cena bem conhecida de uma véspera de Natal do filme Fanny e Alexander (1982), de Ingmar Bergman.
Clicando aqui, você poderá apreciar Zjevení na íntegra e, abaixo (reduzidos), como os banners ficaram:

Jan HÍSEK (Grafika – hlubotisk), Zjevení (Revelation/Apocalipse), 1995, 39×57 cm (detalhes, adaptados para o formato do banner).
Mais dois trabalhos do artista:

Jan HÍSEK (Grafika – hlubotisk), Madona s černouškem (Madonna with Blackie), 1992, 23×32cm (detalhe)

Jan HÍSEK (Grafika – hlubotisk), Beránci (Lambs), 1998, 8×7cm
É com o banner do filme Fanny e Alexander, os trabalhos de Hísek e, apesar do calor típico de verões cada vez mais quentes, com a bonita interpretação de Louis Armstrong para a canção White Christmas (1940), clássico natalino de Irving Berlin, que desejo Boas Festas.
WHITE CHRISTMAS (1940) 02:39
Irving Berlin
Artista: Louis Armstrong
Album: Louis Armstrong and Friends – 2003 – What a Wonderful Christmas
Post relacionado: Então é Natal…
…e o que você fez?
Brincadeiras de lado, mas a verdade é que no fim de ano sempre vem a cobrança, nem que seja interna, uma espécie de balanço para saber se houve progresso ou não. Um acadêmico, por exemplo, verifica se conseguiu mais títulos, se publicou mais artigos e pappers. Já os religiosos, principalmente os cristãos, vão checar as caridades que fizeram durante o ano. Outros checam a(s) conta(s) no(s) banco(s). E por aí vai.
Quem não atingiu as metas se sente frustrado: aquele que não perdeu peso, aquele que não malhou, aquele que não parou de fumar, aquele que não arranjou namorada. E por aí vai.
Estas são formas de avaliação derivadas de conceitos positivistas.
Entretanto, como diz a canção, o ano termina e nasce outra vez. E assim, (res)surgem projetos: dessa vez não passei no vestibular, ok, falhei, não estudei tanto assim, mas vou me esforçar mais, fazer cursinho, revisar tudo e no próximo eu passo. Não é assim?
Eu acho interessante. Porém, como todos, checo mentalmente o que fiz e não fiz, traço minhas metas e faço minhas promessas de fim de ano. Mas também lembro que um dos meus filósofos favoritos, que inclusive tem até tag neste site, *John Gray*, no final do livro Cachorros de palha diz:
Outros animais não precisam de um propósito na vida. Uma contradição em si mesmo, o animal humano não pode passar sem um. Será que não podemos pensar o propósito da vida como sendo simplesmente ver?
Assim, deixo esta pergunta de fim de ano para vocês. E quem puder, leia o livro.



O banner foi trocado para o período natalino e é um pohlednice de Jirí Slíva (Pilsen, 1947) que foi levemente alterado para caber no espaço do topo. Mas que diabos é um pohlednice? *Creio eu* que na língua dele é um cartão, tipo e-card. Este retrata a jazz band dos três reis magos: Gaspar (Kaspar), Melquior e Baltasar.

Ah, já ia esquecendo! O Google é bastante criativo em seus logotipos comemorativos, mas ainda não compreendi o sentido deste: um cara que explode um canhão e sai um outro enrolado em um tapete vermelho.

Passemos à música. Um dos discos de Natal que mais gosto é o da trilha sonora do filme do Snoopy. Ele é leve como champagne: não é perfeito pois tem vocal infantil em uma ou duas músicas, mas é sobretudo estilo piano-jazz com canções como O Tannenbaum, Christmas time is here, além de Greenleaves e Pour Elise também.
É uma boa dica pois é um disco que não vai te deixar para baixo (canções de natal as vezes fazem isso). Por ser suave, não interfere, não disputa espaço: a família pode conversar a vontade e ele dará um ritmo natalino ao fundo.
Ouça a versão de O Tannenbaum (Wagner) que está no portal domínio público e depois a do disco do Snoopy. É isto que fascina na música: a liberdade e possibilidade de diversos arranjos e interpretações, cada uma tocante — desculpem o trocadilho — (ou não) a seu modo.
O TANNENBAUM 05:08
Album: Vince Guaraldi Trio – 1965 – A Charlie Brown Christmas
Autor: Wilhelm Richard Wagner
Boas festas.
