Aprendendo a Aprender


Mulher e poesia - Vinicius de Moraes
5 Março 2008, 9:49 am
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Jeanne Hebuterne (1898-1920), 1919.
Amedeo Modigliani (1884-1920)

A BRUSCA POESIA DA MULHER AMADA

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente…
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados…

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Rio de Janeiro, 1938

in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “A saudade do cotidiano”



Mulher e poesia - Adélia Prado
9 Outubro 2007, 10:05 am
Arquivado em: *Isabela*, Mulher e poesia, Pinturas, Poesia

Mother and child - Carl Holsoe
Mother and child
Carl Holsoe (1863-1935)

ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente,
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado. Poesia reunida, Editora Siciliano, 1991 - S.Paulo, Brasil



Mulher e poesia - Millôr Fernandes
10 Setembro 2007, 12:00 am
Arquivado em: *Isabela*, Mulher e poesia, Poesia

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Woman Seated at a Table by a Window
By Carl Holsoe (1863-1935)

POEMA PARA GRANDE ORQUESTRA PARADA - UM SILÊNCIO BEM ALTO

Você já amou uma mulher brilhante.
Você já amou uma mulher formosa.
Você já amou uma mulher
Silenciosa?
Que fala pouco.
E bem,
E baixo,
Que não eleva a voz por raiva
Nem má educação,
Que anda com seus pés de seda
Num mundo de algodão.
Que não bate, fecha a porta,
Como quem fecha o casaco
De um filho
(Ou abre um coração)?
Que quando fala, se aproxima
Ao alcance da mão
Pra que a voz não se transforme em grito?
E que absorve o mundo
Sem re-percussão
Num olhar de preguiça
Num colchão de cortiça
Como um mata-borrão?

Mas um dia ela sai
Levando o seu silêncio
De pingüim andando solitário em
sua Antártica
(ou Antártida),
No eterno
Gelo sobre gelo
No infinito
Branco sobre branco
E dos cantos e recantos
Onde habitou calada
- entre oniausente -
Brotam aos poucos,
Os ruídos
Pisados,
Colocados embaixo do tapete
Guardados na despensa
Na gaveta mais funda
De uma vida em comum.
Os trincos falam,
A cafeteira chia,
A espreguiçadora range,
O telefone toca,
As louças tinem,
O relógio bate,
O cão ladra,
O rádio mia,
Toda a casa ressoa, reverbera
e brada
E a orquestra em pleno do teu
dia-a-dia
Ataca a algaravia
Fabril
Escondida no lençol de silêncio
Com que ela partiu.

MILLÔR FERNANDES. Do seu livro POEMAS. Contido no CD-ROM “Millôr - Em busca da imperfeição“- 1999

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Quero falar pouco. E bem, e baixo. Só o título já é brilhante “Poema para grande orquestra parada - Um silêncio bem alto” (grifos meus) que lembra “aquele silêncio, que pior que uma alarida” de Guimarães Rosa em Grande sertão: veredas. Dois oximoros maravilhosos (e eu que adoro bons oximoros).

E sobre o poema, o que mais posso dizer? *Silêncio*