Aprendendo a Aprender


Meme místico
22 Julho 2008, 11:42 am
Arquivado em: *Isabela*, Amizade, Cinema, Figuras, John Gray, Memética, Religião

O post Memética, intertextualidade e l’ange au sourire de Reims recebeu o seguinte comentário:

Para aquele(a)s que buscam uma breve explicação sobre o que vem a ser a memética, não posso deixar de recomendar o excelente artigo de Adrian Leverkuhn.

Sobre este assunto, John Gray, no livro Cachorros de palha (p. 43), provoca:

Os memes são aglomerados de idéias e crenças que presumivelmente competem uns com os outros de forma semelhante às dos genes. Na vida da mente, bem como na evolução biológica, existe um tipo de seleção natural de memes através da qual os memes mais adaptáveis sobrevivem. Infelizmente, os memes nao são genes. Na história das idéias, não há nenhum mecanismo de seleção natural de mutações genéticas em evolução.
De qualquer modo, apenas alguém milagrosamente inocente em relação à história poderia acreditar que a competição entre idéias possa resultar no triunfo da verdade. Certamente as idéias competem umas com as outras, mas os vencedores são normalmente aqueles que têm o poder e a loucura humana do seu lado. Quando a Igreja medieval exterminou os cátaros, terão os memes católicos prevalecido sobre os memes dos hereges? Se a Solução Final [de Hitler para a questão judaica] tivesse sido ultimada, isso teria demonstrado a inferioridade dos memes hebreus?

Agora, para MEG:


Marie Françoise Thérèse Martin (Maria Francisca Teresa Martin)
Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face

Thérèse: Ordinary girl, extraordinary soul - O filme.

Oração:

Santa Teresinha, a vós recorremos em nossas trevas. Alcançai-nos, para nós, para a nossa pátria, as luzes do Divino Espírito Santo para que todo o nosso íntimo seja luz e claridade, para que recebam sempre os raios benéficos e esplêndidos de quem se apresentava ao mundo como a Luz celeste. Amém.

THERE IS A BALM IN GILEAD 3:19
Artista: Jessye Norman
Piano: Dalton Baldwin
Diretor: Willis Patterson
Album: Norman - Espirituales Negros, 1979, Philips

There is a balm in Gilead
To make the wounded whole
There is a balm in Gilead
To heal the sin-sick soul

Sometimes I feel discouraged
And think my work’s in vain
But then the Holy Spirit
Revives my soul again

Don’t ever feel discouraged
For Jesus is your friend
And if you lack of knowledge
He’ll ne’er refuse to lend

If you cannot preach like Peter
If you cannot pray like Paul
You can tell the love of Jesus
And say, “He died for all”



Diz a ela
5 Setembro 2007, 12:00 am
Arquivado em: *Isabela*, Memética, Música

Chega de Saudade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) foi gravada pela primeira vez por por Elizeth Cardoso em 1958 no disco Canção do Amor Demais. Acompanhada pelo violão de João Gilberto com a tal batida difererente, foi considerada o marco inicial da Bossa Nova.

Diz a ela, com letra de Ana Terra e musicada por Lisa Ono é cheia de referências invertidas à Chega de Saudade. As comparações podem ser feitas pela correspondência de cores na tabela abaixo (e o João que elas falam acredito ser o João Gilberto). A melodia é gostosa, a voz de Lisa Ono também. Se a intertextualidade foi proposital, ficou uma bela homenagem.

CHEGA DE SAUDADE DIZ A ELA
Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela
Não pode ser, diz-lhe numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso
Mais sofrer. Chega de saudade a realidade
É que sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca, dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser, milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim.
Não quero mais esse negócio de você longe de mim
Diz para ela
graças a ela o sol
nunca se apagou
Para a menina
que não rimava a dor

Só pedia em oração

que ela ficasse
sempre perto de João
É que a menina ouvia
a perfeição é cria dessa união

Diz para ela

graças a ela o mar
tem tantos peixinhos

Não há tristeza
é só beleza e paz

*

DIZ A ELA 3′48
Lisa Ono / Ana Terra
Artista: Lisa Ono
Album: Bossa Carioca

CHEGA DE SAUDADE 4′21
Tom Jobim / Vinicius de Moraes
Artista: Tom Jobim
Album: Finest Hour

(Atualizado)



I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter - parte IV
18 Junho 2007, 11:45 am
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Para Cheek to Cheek (Irving Berlin, 1888-1989) tenho duas interpretações favoritas: a tradicional de Fred Astaire e a de Ella Fitzgerald por sua voz, arranjo e swing. Ambas estão na trilha sonora de O paciente inglês (1996).

Falando em filme, para a As Time Goes By (Herman Hupfeld, 1894-1951) de Casablanca (1942) ninguém tira o trono da interpretação de Dooley Wilson e Ingrid Bergman. Não porque seja um passeio, mas por ser marcante. Como esquecer o memorável diálogo? Embora quem tocou foi Elliot Carpenter (pianista, compositor, maestro, etc) posicionado atrás da câmera para que Wilson pudesse vê-lo e assim imitar seus movimentos. Desse modo, corrijo: ninguém tira o trono de Ilsa Lund e Sam = Wilson + Carpenter, não é verdade?

Em Gilda (1946), caso semelhante e outra cena antológica: quando ela canta Put The Blame on Mame Boys (Allan Roberts/Doris Fisher) e faz aquele striptease com uma luva. Na verdade a voz é de Anita Ellis que também interpreta no mesmo filme a música Amado mio. É Gilda, neste caso, misto de Rita Hayworth + Anita Ellis quem canta, afinal.

É claro que essa pequena amostra não esgota a diversidade de interpretações para as músicas citadas, porém dá uma idéia de como a mistura de letra, melodia, intérprete(s) — com suas idiossincrasias, peculiaridades, timing, etc — arranjo, drogas(?!), tecnologia, estilo e criatividade possibilita inúmeras roupagens para a “obra (mais) pura” (letra e música) que pode ficar excepcional (summa cum laude), “ouvível” ou até trash.

E uma mesma música pode ser interpretada de diferentes formas, cada uma delas remetendo a sensações e emoções até díspares. É fácil perceber esse “choque” de interpretações nas versões dadas a Easy To Love (Cole Porter, 1891-1964) por Erroll Garner que a toca com leveza e alegria enquanto Ella Fitzgerald a interpreta de forma comovente. Parecem músicas diferentes. Será que não são?

Parte I
Parte II
Parte III



I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter - parte III
9 Junho 2007, 3:30 pm
Arquivado em: *Isabela*, Jazz, Memética, Música

Quando Billie Holiday entra em cena, sempre lhe dou a primazia. E merecidamente. É o caso de I Get Along Without You Very Well de Hoagy Carmichael — autor da bela Stardust — gravada pela musa no álbum Lady in Satin dezessete meses antes de sua morte, com uma voz consumida, mas carregada de todas as emoções, vivências, tristezas, fracassos, amores, desamores y otras cositas más. Vários artistas gravaram esta canção, mas a interpretação da lady é insuperável. Dou quatro exemplos, como a gravação de Eileen Farrell que se torna “ouvível” diante da de Billie Holiday; já Charlie Watts, perde feio; Chet Baker que é maravilhoso, nessa música não ganha e até Frank Sinatra fica atrás. Reconheço o excelente trabalho de Ray Ellis e sua orquestra, mas ninguém fala “What a guy!” como Billie Holiday. Vou ficar devendo a de Charlie Watts que sempre é tocada no canal de audio Standarts da Sky, uma excelente dica, por sinal.

Outro caso é Solitude (Ellington-Mills-De Lange): Nina Simone interpreta very, very well, mas o back vocal ficou démodé; Thelonious Monk deu um pouco de suavidade; a de Diane Reeves está no fantástico álbum do filme Good Night, and Good Luck e Armstrong interpreta com aquele jeitão dele de sempre. Porém, a de Billie Holiday nunca será suplantada. Só ouvindo para saber por quê.

Parte I
Parte II



I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter - parte II
7 Junho 2007, 12:20 am
Arquivado em: *Isabela*, Filosofia, Jazz, Leituras, Memética, Música

Madeleine Peyroux disse que aprendeu a cantar ouvindo Billie Holiday, já regravou alguns sucessos dela, como Getting Some Fun Out Of Life (Edgar Leslie/Joseph A. Burke) — que também está no álbum Dreamland — e é considerada a Billie Holiday dos anos 1990. Pode até (também) ser jogada de marketing de sua gravadora, mas seu estilo e timbre de voz realmente remetem a Billie Holiday. Gosto muito de MP só que, parafraseando Drummond digo “ora, essa garota ainda lhe falta muito que estudar” para se tornar a nova lady. No álbum Got You on My Mind, gravado com o multi-instrumentista William Galison e que foi lançado apenas por Galison com selo próprio depois de uma questão jurídica, tem Back Your Own Back Yard (Al Jolson, Billy Rose, Dave Dreyer), composição do final dos anos 1920 que a dupla deixou altamente dançável — é impossível não se mexer um pouquinho. Pergunte à vovó como se dança foxtrot e saia dançando o trote da raposa.

A linda La Javanaise, em excelente arranjo, está no álbum Half the perfect world (2006), mas não ganha da interpretação de Juliette Gréco, a elegante musa do existencialismo.

Na verdade fico um pouco dividida pois a La Javanaise de Gréco é nostálgica, tem a aura de uma época que deixou saudades. Por exemplo, no poético texto Espinosa, ou o passeio perfeito o professor Robert Misrahi diz (em contexto filosófico):

Passeava eu recentemente pelo bairro Saint-Germain, nas imediações da rua Buci. Pensava naquele sábio chinês que, segundo Jean Grenier, ensinava a seus discípulos o “passeio perfeito” e me perguntava: seria hoje, doce memória ou puro gozo presente, ou ainda antecipação? Passava diante do Flore, onde havia encontrado Sartre pela primeira vez, e revi a janela de seu pequeno apartamento onde, frequentemente, eu vinha ao meio-dia discutir com ele sobre O ser e o nada. (Do capítulo Felicidade de Café Philo, Le Nouvel Observateur, Jorge Zahar Ed., 1999).

Mas retomemos à música. La javanaise é de Serge Gainsbourg (1928-1981) e para quem nasceu e vive na época do non-fumeur, s’il vous plaît, o vídeo onde ele faz caras e bocas com um cigarro na mão pode causar estranheza.

P.S.: os audios da Madeleine Peyroux podem ser ouvidos em seu site. Postei apenas Back Your Own Back Yard do album em parceria com Galison, já que este não figura no site dela.

Parte I



I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter - parte I
5 Junho 2007, 12:15 pm
Arquivado em: *Isabela*, Jazz, Memética, Música

De Fred E. Ahlert (1892-1953) e musicada por Joe Young (1889-1939), I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter talvez — digo talvez porque é suspeita minha, nunca chequei — seja a música que tem o título mais longo. De meados dos anos 1930, foi gravada por muitos artistas, dentre eles Frank Sinatra, Bing Crosby, Fats Waller – voz, piano, clarinete (1935), Dean Martin, Nat King Cole, Sarah Vaughan e por Ella Fitzgerald, em ritmo diferente num medley com This Guy’s in Love with You (Burt Bacharach/Hal David) no In Budapest (1970). A interpretação de Madeleine Peyroux — de comportamento às vezes discrepante, embora fascinante — que está no álbum Dreamland (1996) é a minha favorita.

P.S.: a de Peyroux pode ser ouvida na íntegra (coisa rara) em seu site.



Memética, intertextualidade e l’ange au sourire de Reims
1 Junho 2007, 1:55 pm
Arquivado em: *Isabela*, Literatura, Memética, Poesia

Foi Carlos Drummond de Andrade quem começou este meme em seu Poema de sete faces, o mesmo que tem o conhecido “Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração.”

Na verdade, o poema inicia assim:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

Aí Torquato Neto, em Let’s play that (musicada por Jards Macalé), confessou:

Quando eu nasci / um anjo louco muito louco / veio ler a minha mão / não era um anjo barroco / era um anjo muito louco, torto / com asas de avião

eis que esse anjo me disse / apertando minha mão / com um sorriso entre dentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes

Let’s play that

E Chico Buarque, em Até o fim, cantou e contou:

Quando nasci veio um anjo safado / O chato dum querubim / E decretou que eu tava predestinado / A ser errado assim / Já de saída a minha estrada entortou / Mas vou até o fim…

A mineira Adélia Prado, nascida em Divinópolis, bom lugar para um anjo aparecer, pede permissão ao poeta e em Com licença poética se posiciona assim:

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

L'ange au sourire de Reims

Linda essa “vontade de alegria”, Adélia! Também peço licença poética para contar, em prosa mesmo porque não tenho o dom da poesia, que quando nasci o anjo sorridente da Catedral de Reims, olhando-me melifluamente disse: Allez enfant — sim, com sotaque e às vezes falando em francês — não se esqueça que a vida é feita de momentos e você deve vivê-la enquanto puder. Você ri, ma fille, porque isso é tão batido e óbvio, mas como as pessoas esquecem! Votre attention, s’il vous plaît: anunciei o nascimento do beau Dieu, vi coroações de reis de France com pompa e sofisticação, mas também vi burgueses revoltados e até duas grandes guerras. Tudo passou e quem viveu, viveu. Por isso, nesse tempo que você vai estar na terra, respeite — transcenda aquela idéia de subjugação e dominação postulada por Bacon e outros do Iluminismo e respeite não apenas seus semelhantes, mas os outros animais e a natureza; ouça, aprecie, duvide, não tenha certeza, aprenda e continue aprendiz. Au revoir.

E voou.