…la historia del hombre de muchos senderos,
que, después de destruir la sacra ciudad de Troya,
anduvo peregrinando larguísimo tiempo.
Homero, La Odisea
No início dos anos 1930, Antoine Roquentin, personagem-autor do livro-diário A náusea (1938), de Jean-Paul Sartre, após haver viajado pela Europa-Central, África do Norte e extremo oriente, tinha se fixado havia três anos em Bouville para aí concluir suas pesquisas históricas sobre o marquês de Rollebon. Na biblioteca de Bouville, conheceu Ogier P… — o Autodidata — e um dia combinaram de almoçar e bater um papo. Extraio dessa conversa o fragmento a seguir, iniciado com uma pergunta do Autodidata:
– Li há alguns anos um livro de um autor americano que se chamava A vida vale a pena ser vivida? Não é essa a pergunta que o senhor se faz?
Evidentemente não, não é esta a pergunta que me faço. Mas não quero explicar nada.
– Ele concluía — diz o Autodidata em tom de consolo — optando pelo otimismo voluntário. A vida tem sentido, se quisermos lhe dar um. Em primeiro lugar é preciso agir, se lançar num empreendimento qualquer. Se em seguida refletirmos, a sorte está lançada, estamos comprometidos. Não sei o que é que o senhor pensa a esse respeito.
– Nada — digo.
Ou por outra, penso que é precisamente o tipo de mentira que utilizam para si mesmos, perpetuamente, os caixeiros-viajantes, os dois jovens e o senhor de cabelos brancos [pessoas que estavam no restaurante].
O Autodidata sorri com um pouco de malícia e muita solenidade:
– Também não sou dessa opinião. Acho que não temos que ir buscar tão longe o sentido de nossa vida.
– Como?
– Há uma finalidade, senhor, há uma finalidade… há os homens.
É verdade: estava esquecendo que ele é um humanista. Permanece um momento em silêncio, o tempo de fazer desaparecer cuidadosamente, inexoravelmente, a metade de sua carne estufada e e uma fatia inteira de pão. “Há os homens…” Esse homem sensível acaba de pintar um auto-retrato. Sim, mas não sabe se expressar bem. É indiscutível que seus olhos transbordam de alma, mas a alma não basta. No passado freqüentei humanistas parisienses, ouvi-os dizer mais de cem vezes: “há os homens” e era diferente! Virgan era inigualável. Tirava os óculos, como para se mostrar nu em sua carne de homem, me encarava com seus olhos comoventes, com um olhar grave e fatigado, que parecia me despir para captar minha essência humana, depois murmurava melodiosamente: “Há os homens, meu velho, há os homens.” E dava ao há uma espécie de força canhestra, como se seu amor pelos homens, perpetuamente novo e admirado, se enredasse em suas asas gigantescas. A mímica do Autodidata não adquiriu esse aveludado; seu amor pelos homens é ingênuo e bárbaro: um humanista de província.
Realmente, há os homens, que por terem um cérebro privilegiado, consideram-se superiores às outras espécies e com o direito de subjugá-las, até mesmo as destruir. Há os homens, que desde a filosofia de Platão ao advento da cristandade, do Iluminismo a Nietzsche, forjou o pensamento ocidental baseado em crenças arrogantes e equivocadas sobre o lugar dos seres humanos no mundo. Filosofias como o liberalismo e o marxismo pensam a humanidade como uma espécie cujo destino é transcender seus limites naturais e conquistar a terra (da orelha de Cachorros de palha, John Gray, Editora Record, 2005). Há os homens que, se nenhuma outra certeza lhes restar, saberão sempre que são humanos (da orelha de Então você pensa que é humano? de Felipe Fernándes-Armesto, Companhia das Letras, 2007). Há os homens que pensam ser senhores do seu destino. Há os homens, e por isso a Terra já não é a mesma.
Ah, os homens!
Foi Carlos Drummond de Andrade quem começou este meme em seu Poema de sete faces, o mesmo que tem o conhecido “Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração.”
Na verdade, o poema inicia assim:
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
Aí Torquato Neto, em Let’s play that (musicada por Jards Macalé), confessou:
Quando eu nasci / um anjo louco muito louco / veio ler a minha mão / não era um anjo barroco / era um anjo muito louco, torto / com asas de avião
eis que esse anjo me disse / apertando minha mão / com um sorriso entre dentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes
Let’s play that
E Chico Buarque, em Até o fim, cantou e contou:
Quando nasci veio um anjo safado / O chato dum querubim / E decretou que eu tava predestinado / A ser errado assim / Já de saída a minha estrada entortou / Mas vou até o fim…
A mineira Adélia Prado, nascida em Divinópolis, bom lugar para um anjo aparecer, pede permissão ao poeta e em Com licença poética se posiciona assim:
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

Linda essa “vontade de alegria”, Adélia! Também peço licença poética para contar, em prosa mesmo porque não tenho o dom da poesia, que quando nasci o anjo sorridente da Catedral de Reims, olhando-me melifluamente disse: Allez enfant — sim, com sotaque e às vezes falando em francês — não se esqueça que a vida é feita de momentos e você deve vivê-la enquanto puder. Você ri, ma fille, porque isso é tão batido e óbvio, mas como as pessoas esquecem! Votre attention, s’il vous plaît: anunciei o nascimento do beau Dieu, vi coroações de reis de France com pompa e sofisticação, mas também vi burgueses revoltados e até duas grandes guerras. Tudo passou e quem viveu, viveu. Por isso, nesse tempo que você vai estar na terra, respeite — transcenda aquela idéia de subjugação e dominação postulada por Bacon e outros do Iluminismo e respeite não apenas seus semelhantes, mas os outros animais e a natureza; ouça, aprecie, duvide, não tenha certeza, aprenda e continue aprendiz. Au revoir.
E voou.
A TI, LEITOR
De Walt Whitman
Tu, leitor, que palpitas de vida e orgulho e amor, assim como eu,
Para ti, por isso, os cantos que aqui seguem.
(Tradução: Luciano Alves Meira )
RUMO A BIZÂNCIO
De William Butler Yeats
I
Este país não é para velhos. Jovens
Abraçados, pássaros que nas árvores cantam
- essas gerações moribundas -
Cascatas de salmões, mares de cavalas,
Peixe, carne, ave, celebrando ao longo do Verão
Tudo quanto se engendra, nasce e morre.
Prisioneiros de tão sensual música todos abandonam
Os monumentos de intemporal saber.
II
Um velho é coisa sem valor,
Um andrajo apoiado num bordão, a não ser que
A alma aplauda e cante, e cante mais alto
Cada farrapo da sua mortal veste.
Nem há escola de canto somente o estudo
Dos monumentos de seu próprio esplendor;
Por isso cruzei os mares e cheguei
À sagrada cidade de Bizâncio.
III
Oh, sábios que estais no sagrado fogo de Deus
Qual dourado mosaico sobre um muro,
Vinde desse fogo sagrado, roda que gira,
E sede os mestres do meu canto, da minha alma.
Devorai este meu coração; doente de desejo
E atado a um animal agonizante
Ele não sabe o que é; juntai-me
Ao artifício da eternidade.
IV
Da natureza liberto jamais de natural coisa
Retomarei minha forma, meu corpo,
Mas formas outras como as que o ourives grego
Em ouro forja e esmalta em ouro
Para que o sonolento Imperador não adormeça;
Ou em dourado ramo pousado, cantarei
Para damas e senhores de Bizâncio
Cantarei o que passou, o que passa, ou o que virá
(tradução: José Agostinho Baptista)
QUANDO FORES VELHA
De William Butler Yeats
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.
(tradução: José Agostinho Baptista)
A VELHICE
De Walt Whitman
Vejo em ti o estuário que cresce e se espalha grandemente quando desemboca no mar colossal.
(tradução: Luciano Alves Meira)

