Revisando a literatura para um trabalho que envolveu, entre outras questões, a baixa-estima do homem rural, principalmente com relação à sua falta de instrução e à idéia de que o rural não é lugar para quem estuda, revisitei alguns personagens da literatura, com seus lamentos e anseios por instrução. Riobaldo, do romance Grande sertão: veredas (1), é um deles:
Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração (p.14).
Mas o senhor vai avante. Invejo é a instrução que o senhor tem (p.100).
Ah, eu só queria ter nascido em cidades, feito o senhor, para poder ser instruído e inteligente! (p. 407).
Zé Bebelo, amigo de Riobaldo, parte para a realização de seu sonho: “E Zé Bebelo corrigiu, para eu ouvir, os projetos que ele tinha. [...] Não queria saber do sertão, agora ia para a capital, grande cidade. Mover com comércio, estudar para advogado” (p. 606).
(1) ROSA, J. G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2006 (Biblioteca do Estudante).
I - Primeira Parte: Brasão
Bellum sine bello
[...]
TERCEIRO / O CONDE D. HENRIQUE
Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.
Ao começar os meus estudos, o passo inicial me agradou tanto,
A mera tomada de consciência dos fatos, essas formas, o poder do movimento,
O menor dos insetos ou animais, os sentidos, a vista, o amor,
Digo que o primeiro passo me assombrou e me deu tanto prazer
Que eu nem sequer teria passado, e dificilmente teria desejado passar além daquele
………………………………………………………………………………………[ponto,
Mas quereria parar ali e vaguear o tempo inteiro, cantando tudo aquilo em cantos
.....................................................................................................................[extáticos.
[...]
Nós, desejosos aprendizes de tudo, professores de tudo, amantes de tudo.
Assistimos as estações que se doam e passam,
E temos dito: por que não deveria um homem ou uma mulher fazer
tal qual as estações, transbordando o mesmo tanto de si mesmos?
Walt Whitman, Folhas de relva, tradução de Luciano Alves Meira.
Quando pensamos muito sobre o homem, por trabalho ou vocação, às vezes sentimos nostalgia dos primatas. Estes não tinham segundas intenções.
Jean-Baptiste Clamence, em “A queda” de Albert Camus.
- Como se sente, meu peixe? - perguntou em voz alta. - Eu me sinto bem; a mão esquerda está melhor e tenho comida para mais uma noite e um dia. Carregue com o barco, peixe.
Mas, na verdade, ele não se sentia muito bem, por causa da grossa linha atravessada nas costas que quase não sentiam mais a dor, e estava com uma sonolência que não lhe agradava. “A mão direita tem apenas um ferimento e a esquerda já se livrou por completo da cãibra. As pernas estão bem. Também levo vantagem sobre o peixe quanto à alimento.”
O velho e o mar de Ernest Hemingway. Tradução de Fernando de Castro Ferro.
A última palavra sobre o salto de Lord Jim, por Marlow:
Quanto a mim, deixado sozinho com a vela solitária, permaneci singularmente ignorante. Já não era jovem o suficiente para olhar deslumbrado, a cada volta, a magnificência que circunda nossos insignificantes passos no bem e no mal. Sorri ao pensar que, afinal, de nós dois, foi ele quem ainda assim teve a luz. E me entristeci. Um novo começo, disse ele? Uma lousa apagada? Como se a palavra inicial do destino de cada um de nós não estivesse gravada com caracteres imperecíveis na face de uma pedra.
Conrad, J. Lord Jim. New York: W. W. Norton e Co., 1968 apud Gray, J. Cachorros de palha: reflexões sobre humanos e outros animais. Rio de Janeiro: Record, 2005.
A praça La Défense, em Paris, um enorme quadrilátero na margem direita do Sena, concebida, comissionada e construída por François Mitterrand (como monumento duradouro de sua presidência. em que o esplendor e grandeza do cargo foram cuidadosamente separados das fraquezas e falhas pessoais de seu ocupante), incorpora todos os traços da primeira das duas categorias do espaço publico urbano, que não é, no entanto — enfaticamente não é –, “civil”. O que chama a atenção do visitante de La Défense é antes e acima de tudo falta de hospitalidade da praça: tudo o que se vê inspira respeito e ao mesmo tempo desencoraja a permanência. Os edifícios fantásticos que circundam a praça enorme e vazia são para serem admirados, e não visitados; cobertos de cima a baixo de vidro refletivo, parecem não ter janelas ou portas que se abram na direção da praça; engenhosamente dão as costas à praça diante da qual se erguem. São imponentes e inacessíveis aos olhos — imponentes porque inacessíveis, estas duas qualidades que se complementam e reforçam mutuamente. Essas fortalezas/conventos hermeticamente fechadas estão na praça, mas não fazem parte dela — e induzem quem quer que esteja perdido na vastidão do espaço a seguir seu exemplo e sentimento. Nada alivia ou interrompe o uniforme e monótono vazio da praça. Não há bancos para descansar, nem arvores sob cuja sombra esconder-se do sol escaldante. (Há, e certo, um grupo de bancos geometricamente dispostos no lado mais afastado da praça; eles se situam numa plataforma um metro do chão da praça — uma plataforma como um palco, o que faria do ato de sentar-se e descansar um espetáculo para todos os outros passantes que, diferentemente dos sentados têm o que fazer ali). De tempos em tempos, com a regularidade do horários do metrô, esses outros — filas de pedestres, como formigas apressadas — emergem de debaixo da terra, estiram-se sobre o pavimento de pedras que separa a saída do metrô de um do brilhantes monstros que cercam (sitiam) a praça e desaparecem rapidamente da vista. E a praça fica novamente vazia — até a chegada do próximo trem (p. 113).

Praça La Défense, Paris. Outras imagens (maiores) aqui: La Defense and Grande Arche de la Defense, preste atenção principalmente nas fotos 3 e 4.
Texto extraído do livro Modernidade líquida, do sociológo polonês Zygmunt Bauman, publicado no Brasil pela Jorge Zahar Editor. Preferi não colocar o texto em itálico para assim manter os grifos do original, todos em itálico.
Você já começou a ler um livro e, o julgando difícil, pensou que não conseguiria sair do primeiro capítulo para, no capítulo seguinte, passar a apreciar a leitura?
