Argel foi para Camus a “pátria da alma”. A “pátria da alma” é o lugar onde o homem sente os laços que o ligam à uma determinada terra. A Argélia, com sua exuberante natureza e o seu povo mediterrâneo ensinou-lhe muitas coisas. “Aprendi que não existe felicidade sobrehumana, eternidade para além dos dias. Esses bens decisórios e essenciais, essas verdades relativas são as únicas que me emocionam. As outras, as “ideais”, eu não tenho bastante alma para compreendê-las”. A pureza consiste em encontrar uma “pátria da alma”, pois a dificudade do homem é que ele deve ser homem e puro.
Extraído do livro “Camus: vida e obra” de Vicente Barreto, 2. ed. Editora Paz e Terra, 1991. Páginas 39-40.

A criação de Oz, propriamente dita, já passou a ser lendária: o autor, L. Frank Baum, batizou seu mundo mágico com as letras O-Z da última gaveta de seu arquivo.
Baum teve uma vida estranha, cheia de altos e baixo. Nasceu rico, herdou de seu pai uma cadeia de pequenos cineteatros, e os perdeu por má administração. Escreveu uma peça de sucesso e vários fracassos. Os livros sobre Oz fizeram dele um dos principais escritores de histórias infantis da época mas todos os seus outros romances de fantasia naufragaram. The Wonderful Wizard of Oz e uma adaptação musical deste livro para a ribalta restauraram as finanças de Baum; mas uma tentativa financeiramente desastrosa de fazer uma turnê pelos Estados Unidos promovendo seus livros com um fairylogue de eslaides e filmes levou-o a pedir falência em 1911. Depois disso, vivendo à custa do dinheiro da mulher em “Ozcot”, Hollywood, ele criou galinhas e ganhou prêmios em exposições de flores. Suas finanças melhoraram após o pequeno sucesso de um musical da série Oz, The Tik-Tok Man of Oz, mas em seguida ele as arruinou novamente ao montar sua própria companhia cinematográfica, a Oz Film Company, e tentar infrutiferamente filmar e distribuir os livros da série Oz. Após dois anos preso ao leito e, conta-se, ainda otimista, morreu em maio de 1919 (Salman Rushdie, O mágico de Oz, Rocco, p.14-15).
Revisando a literatura para um trabalho que envolveu, entre outras questões, a baixa-estima do homem rural, principalmente com relação à sua falta de instrução e à idéia de que o rural não é lugar para quem estuda, revisitei alguns personagens da literatura, com seus lamentos e anseios por instrução. Riobaldo, do romance Grande sertão: veredas (1), é um deles:
Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração (p.14).
Mas o senhor vai avante. Invejo é a instrução que o senhor tem (p.100).
Ah, eu só queria ter nascido em cidades, feito o senhor, para poder ser instruído e inteligente! (p. 407).
Zé Bebelo, amigo de Riobaldo, parte para a realização de seu sonho: “E Zé Bebelo corrigiu, para eu ouvir, os projetos que ele tinha. [...] Não queria saber do sertão, agora ia para a capital, grande cidade. Mover com comércio, estudar para advogado” (p. 606).
(1) ROSA, J. G. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2006 (Biblioteca do Estudante).
I – Primeira Parte: Brasão
Bellum sine bello
[...]
TERCEIRO / O CONDE D. HENRIQUE
Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.
Ao começar os meus estudos, o passo inicial me agradou tanto,
A mera tomada de consciência dos fatos, essas formas, o poder do movimento,
O menor dos insetos ou animais, os sentidos, a vista, o amor,
Digo que o primeiro passo me assombrou e me deu tanto prazer
Que eu nem sequer teria passado, e dificilmente teria desejado passar além daquele
………………………………………………………………………………………[ponto,
Mas quereria parar ali e vaguear o tempo inteiro, cantando tudo aquilo em cantos
.....................................................................................................................[extáticos.
[...]
Nós, desejosos aprendizes de tudo, professores de tudo, amantes de tudo.
Assistimos as estações que se doam e passam,
E temos dito: por que não deveria um homem ou uma mulher fazer
tal qual as estações, transbordando o mesmo tanto de si mesmos?
Walt Whitman, Folhas de relva, tradução de Luciano Alves Meira.
Quando pensamos muito sobre o homem, por trabalho ou vocação, às vezes sentimos nostalgia dos primatas. Estes não tinham segundas intenções.
Jean-Baptiste Clamence, em “A queda” de Albert Camus.
- Como se sente, meu peixe? – perguntou em voz alta. – Eu me sinto bem; a mão esquerda está melhor e tenho comida para mais uma noite e um dia. Carregue com o barco, peixe.
Mas, na verdade, ele não se sentia muito bem, por causa da grossa linha atravessada nas costas que quase não sentiam mais a dor, e estava com uma sonolência que não lhe agradava. “A mão direita tem apenas um ferimento e a esquerda já se livrou por completo da cãibra. As pernas estão bem. Também levo vantagem sobre o peixe quanto à alimento.”
O velho e o mar de Ernest Hemingway. Tradução de Fernando de Castro Ferro.
A última palavra sobre o salto de Lord Jim, por Marlow:
Quanto a mim, deixado sozinho com a vela solitária, permaneci singularmente ignorante. Já não era jovem o suficiente para olhar deslumbrado, a cada volta, a magnificência que circunda nossos insignificantes passos no bem e no mal. Sorri ao pensar que, afinal, de nós dois, foi ele quem ainda assim teve a luz. E me entristeci. Um novo começo, disse ele? Uma lousa apagada? Como se a palavra inicial do destino de cada um de nós não estivesse gravada com caracteres imperecíveis na face de uma pedra.
Conrad, J. Lord Jim. New York: W. W. Norton e Co., 1968 apud Gray, J. Cachorros de palha: reflexões sobre humanos e outros animais. Rio de Janeiro: Record, 2005.
