A primeira edição de “Dialética do esclarecimento” de Horkheimer e Adorno saiu pela editora Querido em Amsterdam em 1947 e completou, portanto, sessenta anos em 2007.
Neste livro, os autores utilizam trechos da “Odisséia” como testemunho da dialética do esclarecimento. Um dos episódios analisados é o dos lotófagos, os comedores de lótus.
Uma das primeiras aventuras do nostos[1] propriamente dito remonta [...] [à] narrativa dos lotófagos, dos comedores de lótus. Quem prova de sua comida sucumbe como os que escutam as Sereias ou como os que foram tocados pela varinha de Circe. Todavia, nenhum mal é feito às suas vítimas: ‘Os lotófagos nenhum mal fizeram aos homens de nosso grupo.’[2] A única ameaça é o esquecimento e a destruição da vontade. A maldição condena-os unicamente ao estado primitivo sem trabalho e sem luta na ‘fértil campina’:[3] ‘ora, quem saboreava a planta do lótus, mais doce do que o mel, não pensava mais em trazer notícias nem em voltar, mas só queria ficar aí, na companhia dos lotófagos, colhendo o lótus, e esquecido da pátria’[4] (HORKHEIMER e ADORNO, 1985, p. 67).
Penso que a televisão brasileira tem sido um verdadeiro manancial de lótus. Ela bem que poderia ser uma aliada da educação, principalmente infantil, mas sua programação é superficial e comercial. Um dos canais de TV por assinatura, por exemplo, apresenta um Quiz nos intervalos dos jornais com perguntas desse tipo: “Quantos banheiros tem o palácio de Versailles?” ou “Quem foi o criador da Barbie?”. Por que não perguntam “Qual desses animais está ameaçado de extinção?” ou “Por que esse político foi cassado?”. Mas não, o que interessa é nos dar lótus fresquinho.
Comer lótus não é de todo ruim quando existe a possibilidade de escolha e quando ele não é o único prato da dieta. No entanto, vejamos este caso: ao conversar com a diretora de uma escola pública em um povoado do semi-árido nordestino, perguntei sobre o quadro de professores e ela me respondeu que, contando com ela, a escola tem duas professoras. Além da direção, ela é responsável, no turno da manhã, por três classes do segundo ao quinto ano e ensina às quatro turmas em uma mesma sala de aula. Se imaginarmos que, além das deficiências da escola, ao chegar em casa, esses estudantes vão assistir a programação de alguns desses canais de TV que oferecem lótus bem novinho, como ficará a aprendizagem?
Horkheimer e Adorno afirmam que a cena dos homens comendo lótus lembra um tipo de felicidade artificial, a felicidade dos narcóticos, de que se servem as camadas oprimidas nas sociedades endurecidas, a fim de suportar o insuportável. Entretanto, a razão autoconservadora não pode admitir essa cena pois, esse idílio, é a mera aparência da felicidade, um estado apático e vegetativo, pobre como a vida dos animais (grifos nossos) e, no melhor dos casos, a ausência da consciência da infelicidade.
Discordando de mestres. Quanto à última citação, a parte que ressaltei fala que a vida dos animais é pobre. Não sei qual o termo usado no original, mas os autores poderiam ter empregado outro adjetivo porque pobre significa, entre outras coisas, desprovido e os animais, em seu comportamento natural, não têm uma vida assim. Eles caçam, lutam, copulam, alimentam a si e aos filhotes… qual a pobreza nisso? A própria crítica filosófica das categorias ocidentais da razão apresenta resíduos de um pensamento pautado na idéia de superioridade do homem.
NOTAS
[1]Nostos, palavra grega que significa retorno, volta a casa, viagem (cf. “nostalgia”) (N. do T.)
[2]Odisséia IX, 92 sg.
[3]Ibid, XXII, 311.
[4]Ibid, IX, 94 sgg.
REFERÊNCIA
HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
Depois do aquecimento global, surge o escurecimento global ou global dimming. Este fenômeno começou a ser estudado há cinco décadas por Gerry Stanhill, um cientista inglês que trabalha em Israel, e tem a ver com a redução da radiação solar que chega à Terra. O percentual de luz solar no mundo decresceu em 10% nos EUA, quase 30% em partes da antiga União Soviética, 16% nas Ilhas Britânicas, tendo um declínio global de 1-2% por década de 1950 a 1990. O escurecimento global parece ser causado pela poluição do ar que bloqueia uma parte da luz do sol em direção a terra, sendo refletida de volta ao espaço (BBC ; Discovery).
Isso implica em quê? Para cada 1% de escurecimento, tem-se igual percentual de redução de fotossíntese, ou seja, menor produtividade agrícola (menos alimento), porque a capacidade dos vegetais absorverem CO2 é reduzida nos locais onde a poluição é maior. Outra conseqüência é o efeito estufa: a energia, presa na atmosfera da terra pelo dióxido de carbono extra (CO2) que é colocado lá, resultou em uma ascensão da temperatura de 0.6°C. E aumento na temperatura do planeta é muito grave.
Os efeitos do escurecimento global somados aos do efeito estufa, segundo alguns cientistas, pode levar a um cenário apocalíptico até o final deste século, com uma previsão otimista de mais 5 graus e uma pessimista de mais 10 graus na temperatura do planeta. Isso significa dizer o desaparecimento de muitas espécies, inclusive talvez até do homo destructus.
Enquanto isso, baseadas na Bíblia, algumas pessoas cantam em suas igrejas que Deus vai por fogo na terra, tudo queimará, mas que elas vão subir para o céu “pela escada de Jacó”.
Isso decorre da fé de que Jesus virá buscar os salvos e depois Deus fará um novo céu e uma nova terra para os fiéis, os santos, os remidos, os seus filhos, segundo a Bíblia. Então, para quê se preocupar com gases poluentes, aquecimento e escurecimento global se tudo vai acabar mesmo?
A Bíblia, com sua visão antropocêntrica, semeou idéias de dominação da natureza pelo homem. Os animais e a flora foram criados para usufruto e exploração do homem, ser criado à imagem e semelhança de Deus, que disse:
Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem e semelhança; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra (Gn 1.26-30, grifos meus).
Se Deus estivesse preocupado com o planeta e com sua conservação, teria dito: “meus filhos, sejam sábios, sejam homo sapiens e não homo destructus. Estou dando esta terra maravilhosa a vocês, mas procurem não destruí-la, procriem com responsabilidade, cada um tendo quantos filhos possa manter e educar. Lembrem-se que os animais, seres que também criei, não são inferiores a vocês”.
Mas não. Quando Adão e Eva pecaram, comendo do fruto proibido, deram-se conta de que estavam nus e procuraram cobrir-se com folhas de figueira. Quando Deus viu que eles haviam pecado, expulsou-os do jardim. Antes, porém, a Bíblia diz que Deus fez túnicas de pele e os vestiu. Ora, o homem pecou, mas quem pagou com a vida foi um animal, para que sua pele cobrisse e aquecesse os tais pecadores.
A impressão que dá é que Deus só pensava no bicho homem e não estava nem aí para os animais e a natureza. Prova? Tempos depois, os homens se corromperam e a Bíblia diz que:
Viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra, e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: Destruirei, de sobre a face da terra, o homem que criei, desde o homem até ao réptil, e até a ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito. (Gn 6.5-7, grifos meus).
O homem se corrompeu, então por que destruir os animais e as aves? O que os eles tinham a ver com isso? O homem erra e o planeta é inundado! É quando Deus manda o dilúvio e, vejam bem: aquela história de ter colocado casais de animais na arca só aconteceu porque Ele se agradou de Noé. Por causa do patriarca, alguns animais escaparam do dilúvio, mas para servir de sustento aos homens. Há livro mais antropocêntrico que a Bíblia?
Depois, quando Jesus veio ao mundo, pregou uma mensagem de salvação e de amor ao próximo, mas nunca disse em seus sermões uma frase sequer sobre conservação e respeito ao meio ambiente.
Não educamos uma criança quando ela desperdiça água? Quando os homens começaram a espoliar a natureza em excesso, Deus poderia tê-los conscientizado e advertido enviando um “profeta do meio-ambiente” com uma mensagem ecológica, pois era assim que Ele se comunicava com suas criaturas – através dos profetas. Isaías, profeta do Messias; Daniel, profeta do Reino; Jeremias, o profeta chorão; João, profeta do Apocalipse e outros foram porta-vozes das mensagens de Deus – normalmente de exortação e repreensão – aos homens.
Pois a Bíblia também diz: “Instrui ao menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele” (Pv 22.6). Se uma pessoa de formação cristã aprendesse que Deus não gosta que seus filhos poluam o planeta e desperdicem os recursos naturais, mas abençoa e faz prosperar os que preservam a natureza, que impacto que isso teria!
Talvez, se a Bíblia tivesse versículos sobre conservação ambiental e controle demográfico, as coisas não estariam tão ruins. Entretanto, os que crêem que a Bíblia é a palavra de Deus, sabem que basta uma palavra Sua para que um novo mundo seja criado. “Aquecimento? Escurecimento global? São fins dos tempos, irmãos, as profecias estão se cumprindo, Jesus está voltando. Em breve, os salvos partirão deste mundo para a Nova Jerusalém, onde não haverá pranto nem dor”. São Pedro e São João já diziam:
Mas nós, segundo a sua promessa [promessa de Jesus], aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça (2 Pe 3.13, grifos meus) e Maranata, ora vem Senhor Jesus. (Ap 22.20b).
A Bíblia é considerada uma bússola que indica o caminho aos céus e, as pessoas que seguem seus ensinamentos, não consideram este mundo como sua morada. São “peregrinos na terra” e anelam ir ao seu lar: o céu. Músicas, poemas e livros religiosos reforçam essa idéia que, pela fé, virou convicção. Ao enfatizar a vida futura em outro lugar, com Deus, a terra é até comparada ao Egito, quando o povo hebreu viveu lá como escravo de Faraó: um lugar de sofrimento, de lutas, de dificuldades, de passagem. Como valorizar, cuidar e preservar de um lugar que não lhe pertence e que será substituído por algo melhor já que, um dia, será destruído para ser refeito?
Certa feita, ao folhear uma revista, a propaganda de uma escola me chamou muito à atenção porque apresentava a imagem projetada de um edifício que ficou subentendida como sendo do prédio da escola. Ou seja, na propaganda não havia uma observação dizendo que aquela imagem correspondia às futuras instalações. Dias depois, essa escola utilizou uma sala em um shopping center para receber matrículas e projetou em telão imagens produzidas por computador do que viria ser o prédio da escola.
Esse fato me reporta ao texto “Comprender la imagen hoy. Nuevas imágenes, nuevo régimen de lo visible, nuevo imaginário”, de Alain Renaud (1996). Nele, o autor fala que as novas tecnologias da imagem constroem novas relações com o que vemos, com a imagem, pois permite antecipar ativamente o real físico, reproduzi-lo e manipulá-lo através da simulação interativa.
Para este fenômeno, Alain Renaud [1] cria um termo interessante, em francês. Diz que a imagem se faz imagerie (produção de imagens) dinâmica e operacional, integrando o sujeito em uma situação de experimentação visual inédita.
Esse processo a que chama de “simulacro interativo” se substitui à imagem espetáculo, mudando o conjunto das nossas relações com o real e que eram formadoras de todo o pensamento dominante sobre a imagem.
E é assim que tomamos contato com uma realidade projetada: um bairro urbano, um carro, uma construção, uma escola ou faculdade, um parque de diversões etc.
Isso é mais comum na construção civil. As pessoas que compram apartamentos na planta podem ter uma idéia do que estão comprando através da manipulação de imagens. Ou seja, o cliente tem contato com sua futura aquisição, um apartamento em um condomínio, por exemplo, através de cartazes, catálogos e vídeos, tudo virtual.
Estávamos acostumados a comprar objetos vendo sua imagem e agora entramos numa nova fase: comprar pela imagem do que virá a ser.
Assim como a imagem em movimento mudou muito a maneira das pessoas perceberem o real, essas novas tecnologias da imagem vão mudando nossa percepção e, às vezes, nem nos damos conta.
[1] RENAUD, Alain. Comprender la imagem hoy. Nuevas imágenes, nuevo régimen de lo visible, nuevo imaginario. In: ______. Videoculturas de fin de siglo. Madrid: Cátedra, 1996. p 11-26.

Imagerie — propaganda de um condomínio a ser construído
O jornal Deutsche Welle, em reportagem sobre a feira de livro de Frankfurt (2005), expôs que, naquele evento, a maior procura foi por livros ilustrados sobre lugares, que mostrem outras culturas, para relaxar e sobre outras pessoas – principalmente celebridades – e que esse fato demonstra as novas tendências dos consumidores sob a influência da cultura da imagem.
Uma editora afirmou que é mais fácil olhar do que parar para ler e as pessoas querem ver celebridades em grandes eventos históricos e em cidades. Sua empresa ficou surpresa com o sucesso de vendas de dois livros: um sobre o chocolate e outro sobre o panettone italiano, bem como pela demanda por livros nostálgicos sobre cidades e regiões como a Toscana. Outra entrevistada disse que as palavras são secundárias, embora os editores tentem manter a escrita em um padrão elevado.
A casa publicadora francesa Vila observou que nos últimos dez anos, seus leitores se importam cada vez menos com o texto nos livros das mesas de café. Há uma tendência para poucas palavras e mais retratos, sobre páginas duplas, disse seu editor, Arnaud Poirier. O tamanho do texto encolheu pela metade e as imagens tornaram-se mais e mais espetaculares. Segundo ele, também é mais fácil para os negócios: quanto mais textos são traduzidos, mais caro o livro fica.
Nos livros de culinária, aumentar o número de fotografias se transformou em fenômeno, pois os leitores querem fotos bonitas ao lado das receitas. As pessoas não querem cozinhar algo que não podem ver, disse Gabriele Kaufman, da editora francesa Editions de Seuil. Outra constatação é que os livros de receitas exóticas estão vendendo bem porque as pessoas estão curiosas para saber sobre como outros povos vivem no resto do mundo.
Livros que abrem janelas para aspirações mais elevadas, de estilos de vida sofisticados, um olhar sobre algo muito elegante e rico com esperança em conseguir o mesmo life style – foi outra tendência observada. E o mercado para esses livros tem crescido no mundo.
Fredric Jameson, em “Teoria da pós-modernidade”, afirma que o texto literário perdeu seu status privilegiado e que grandes obras já não existem mais: de forma geral, as pessoas compram os livros para amanhã esquecê-los.
Como disse Régis Debray (VERÓN, 1998), na sociedade da imagem há um desprezo pelo discursivo e o mundo já não se representa, mas se torna presença sensível, imediata. E, arremata: “não escrevam mais, jovens, não leiam mais obras, esses monumentos funerários: conectem-se imediatamente, escutem as informações, olhem suas telas, passem-na rápido, sem perder tempo. Quanto menos vestígios deixem, mais livres serão”[1].
NOTA
[1] Traduzido do espanhol: “No escriban más, jóvenes, no lean más obras, esos monumentos funerarios: conéctense inmediatamente, escuchen las informaciones, miren sus pantallas, pásenla bárbaro, sin perder tiempo. Cuantas menos huellas dejen, más libres serán”.
REFERÊNCIAS
DEBRAY, Régis. Cours de médiologie générale. Paris: Gallimard, 1991.
JAMESON, Fredric. Teoria de la postmodernidad. Madrid: Editorial Trotta, 1996. p. 97-145.
VERÓN, Eliseo. Esquema para el análisis de la mediatización. Buenos Aires, Diálogos, n° 50, 1998, p. 10-17.
O semiólogo argentino Eliseo Verón, no texto “Esquema para el análisis de la mediatización” [1], apresenta uma crítica a termos que são incorporados à família dos operadores semânticos destinados, no discursos dos meios de comunicação, a gerar um sentimento de compreensão das situações a que se aplicam.
Tal crítica surge porque a midiatização, termo que foi adotado há vários anos na área acadêmica – segundo hipótese apresentada em uma conferência na Universidade de Paris 8 – estaria entrando em uma nova fase, a hiper-midiatização.
A hiper-midiatização resultaria da emergência dos multimeios, os programas hipertextuais e a explosão provocada por esta sorte de hiper-texto planetário que é a internet. O qualificativo “hiper” aludiria então não apenas a uma “volta de parafuso” a mais no processo da midiatização, mas também ao caráter planetário de tal processo [1].
Midiatização, globalização, glocalização, sustentabilidade…
Operadores que substituem a outros, interpretações que não se explicitam e análises que não se formulam, mas que produzem o mesmo efeito passional: o sentimento (euforizante) de explicar (do lado do emissor) e de compreender (do lado do receptor) a situação ou o acontecimento de que se trata. E esta “ligeireza intelectual” não é só imputável aos meios, senão também aos intelectuais. Ninguém propôs uma boa teoria da midiatização, no entanto, já se nos anuncia que entramos na “hiper”…, diz o professor Verón.
O que acontece é que, como disse Régis Debray [2], não se argumenta, se sintoniza. “O que se busca é estar informado” (Horkheimer e Adorno, 1985, p. 148), plugado, sintonizado, antenado às novas tendências. Basta?
[1] VERÓN, Eliseo. Esquema para el análisis de la mediatización. Buenos Aires, Diálogos, n° 50, 1998, p. 10-17.
[2] DEBRAY, Régis. Cours de médiologie générale. Paris: Gallimard, 1991.
