A atriz Bette Davis e o maestro Herbert Von Karajan têm em comum a data de nascimento: 05 de abril de 1908 e, portanto, a comemoração de seus centenários hoje.
Para Karajan, foram programadas várias homenagens: a rádio pública ORF lhe dedicará uma programação especial de 24 horas, a Filarmônica de Berlim fará concertos em sua homenagem, a Deutsche Grammophon lançou um box com CDs e DVDs, a Sony lançou 30 DVDs com os concertos mais importantes do maestro e uma exposição de fotografias feitas por Siegfried Lauterwasser, seu fotógrafo preferido, será inaugurada no Museo Überlingen.
Para Ruth Elizabeth “Bette” Davis, ganhadora de dois Oscar, a Warner Bros. editou uma coleção com sete DVDs de seus clássicos, o serviço postal dos EUA publicou um selo especial com seu rosto e hoje canais de televisão norte-americanos apresentarão alguns de seus filmes. No Brasil, o canal TCM que normalmente homenageia os aniversários das estrelas de cinema, parece que esqueceu de seu centenário pois não vi nenhum filme dela na programação.
Fonte: EFE
Atualização. Embora sem tempo, escrevi diligentemente estas linhas para não deixar a data passar em branco. Agora, ao menos para Bette Davis, resolvi inserir esta cena formidável do filme de Robert Aldrich What Ever Happened to Baby Jane? — O que terá acontecido a Baby Jane? de 1962. Ou seja, no final das contas, ela dá o presente.
…la historia del hombre de muchos senderos,
que, después de destruir la sacra ciudad de Troya,
anduvo peregrinando larguísimo tiempo.
Homero, La Odisea

Da esquerda para a direita e de cima para baixo, Pink and White Roses, c.1890 – Vincent van Gogh; Gabrielle with a Rose – Pierre-Auguste Renoir; Rose Meditative, c.1958 – Salvador Dali; Le Tombeau des Luteurs – Rene Magritte.
CYPRESSES: O CHARMING GOLDEN ROSE 2′26
Compositor: Antonín Dvorák (1841-1904)
Artistas: Vlach Quartet Prague
Album: DVORAK: Cypresses / String Quartet Movement in F Major
DEN HVIDE, RODE ROSE (THE WHITE AND THE RED ROSE) EG 137 2′08
Compositor: Edvard Grieg (1843-1907)
Soprano: Monica Groop
Album: Grieg, Complet Songs, Vol. 4
CHANTEFLEURS ET CHANTEFABLES: VI LA ROSE (THE ROSE) 2′32
Compositor: Witold Lutoslawski (1913-1994)
Soprano: Olga Pasiecznik
Condutor: Antoni Wit
Album: Lutoslawski: Symphony n°. 1
THREE SONGS Op. 41 NOW HAVE I FED AND EATEN UP THE ROSE 1′58
Compositor: Samuel Barber (1910-1981)
Artistas: Judith Kellock, soprano e Xak Bjerken, piano
Album: Samuel Barber Songs

Enigma of the Rose – Salvador Dali; Roses, c.1885 – Pierre-Auguste Renoir.
BOUQUET OF ROSES 3′53
Artista: Clint Eastwood
Album: Country Masters: The Round-Up
DAYS OF WINE AND ROSES 2′55
Compositores: Henry Mancini / Johnny Mercer
Artista: Julie London
Album: Love Letters From
MON AMIE LA ROSE 4′46
Artista: Natacha Atlas
Album: Gedida
E por falar em rosas, da Rosa, dedico este post a Meg, pelo seu restabelecimento.

Trago a interpretação do magnífico Jean-Pierre Rampal com a Philadelphia Orchestra e regência de Eugene Ormandy para A dança dos espíritos abençoados que faz parte da ópera Orfeu ed Euridice de Christoph Willibald Gluck (1714 – 1787) mas que me remete mais ao trabalho de William Blake (1757-1827) acima Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing — inspirado na obra de Shakespeare Midsummer-Night’s Dream — e que está na Tate Gallery de Londres.
A música casa com a imagem, ou não?
A “Diálética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos” de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer embora concluída em 1944 ainda durante a guerra, saiu pela primeira vez em 1947 pela Editora Querido em Amsterdam com o título Dialektik der Aufklärung.
Para comemorar os sessenta anos deste clássico, uma obra rica, fascinante e ainda muito atual, trago capa da primeira edição (à esquerda), capas reduzidas de edições em alguns países e citações extraídas da edição traduzida por Guido Antônio de Almeida (professor de filosofia da UFRJ), publicada pela Jorge Zahar Editor.
Do Prefácio: “Se uma parte do conhecimento consiste no cultivo e no exame atentos da tradição científica (especialmente onde ela se vê entregue ao esquecimento como um lastro inútil pelos expurgadores positivistas), em compensação, no colapso atual da civilização burguesa, o que se torna problemático é não apenas a atividade, mas o sentido da ciência. (p. 11). [...] Não alimentamos dúvida nenhuma — e nisso reside nossa petitio principii — de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor. (p. 13). [...] A naturalização dos homens hoje em dia não é dissociável do progresso social. O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos. (p. 14). [...] A enxurrada de informações precisas e diversões assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo tempo” (p. 15).
Do capítulo O Conceito de Esclarecimento: “No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber. (p. 19 — talvez a parte mais conhecida da obra, não poderia deixar de citá-la) [...] O esclarecimento é totalitário. (p. 22) [...] Do medo o homem presume estar livre quando não há nada mais de desconhecido. (p. 29) [...] A essência do esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação. Os homens sempre tiveram de escolher entre submeter-se à natureza ou submeter a natureza ao eu. (p. 43) [...] A maldião do progresso irrefreável é a irrefreável regressão. (p. 46 — uma das minhas favoritas). [...] É da imaturidade dos dominados que se nutre a hipermaturidade da sociedade.” (p. 47)
“No mundo da troca, quem está errado é quem dá mais; o amante, porém, é sempre o que ama mais.” (Do Excurso I — Ulisses ou Mito e Esclarecimento, p. 75)
Do capítulo A Indústria Cultural: “O que é novo na fase da cultura de massas [...] é a exclusão do novo. A máquina gira sem sair do lugar. Ao mesmo tempo que já determina o consumo, ela descarta o que ainda não foi experimentado porque é um risco. É com desconfiança que os cineastas consideram todo manuscrito que não se baseie, para tranqüilidade sua, em um best-seller. Por isso é que se fala continuamente em idea, novelty e surprise, em algo que seria ao mesmo tempo familiar a todos sem jamais ter ocorrido. (p. 127) [...] Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. (p. 135) [...] O que se busca é assistir e estar informado, o que se quer é conquistar prestígio e não se tornar um conhecedor.” (p. 148 )
O conceito armchair thinking que eles desenvolveram é muito interessante e também vale a pena ser citado. A nota do tradutor diz que literalmente, armchair thinking é “pensamento de poltrona; pensamento ocioso, que não se baseia na prática ou na experiência, especulação.” É do capítulo Elementos do Anti-Semitismo, p. 188, que extraio esta pérola, para finalizar:
Na era do vocabulário básico de trezentas palavras, a capacidade de julgar e, com ela, a distinção do verdadeiro e do falso estão desaparecendo. Na medida em que o pensamento deixa de representar uma peça do equipamento profissional, sob uma forma altamente especializada em diversos setores da divisão de trabalho, ele se torna suspeito, como um objeto de luxo fora de moda: “armchair thinking“.

