…Sozinho na noite, com um livro iluminado por uma candeia – livro e candeia, dupla ilha de luz, contra duplas trevas do espírito e da noite – eu estudo. Sou apenas o sujeito do verbo estudar.
Pensar, não ouso.
Somente os filósofos pensam antes de estudar. Mas a candeia se apagará antes que o livro difícil seja compreendido. Nada se deve perder da candeia, das grandes horas da vida estudiosa. Se levanto os olhos do livro para olhar a candeia, ao invés de estudar, eu sonho. Então, as horas ondulam no vale solitário. As horas ondulam entre a responsabilidade de um saber e a liberdade dos devaneios; esta extremamente fácil liberdade de um homem solitário.
A minha irmã me enviou por e-mail uma imagem muito bonita de uma garota, mas sem um linha sequer explicando o sentido daquele anexo. Fiquei pensando quem seria aquela menina que, inclusive, parecia com alguém da minha família (alguma prima?!). Curiosa, perguntei à minha irmã o significado e ela respondeu que achou a garota muito parecida *comigo(!)*, mas não sabia informar nada sobre a obra (título, autor ou data), apenas suspeitava que era do período renascentista. Como o nome do arquivo era “mignon”, lembrei que já havia visto de Ary Scheffer (1795-1858), de quem já publiquei neste blog uma imagem de domínio público (aqui), um trabalho de 1839, cujo título é “Mignon” (que soube depois ser Mignon verlangende naar haar vaderland) e reparei que essa moça parece muito com a do meu e-mail. Embora Ary Scheffer não seja do Renascimento, mas do Romantismo, seguindo a pista cheguei à Cornélia Marjolin-Scheffer (1830-1899), única fílha do pintor, ela mesma artista, que transformou sua casa no Musée de la Vie romantique. Também descobri outra obra Mignon verlangende naar de hemel, de 1851, cujo modelo possivelmente foi Cornélia, além de outros trabalhos que posto abaixo, deixando ainda a dúvida no ar: se a imagem do e-mail também é de Cornélia Marjolin-Scheffer, retratada por seu pai.

A garota do e-mail

(1) Ary Scheffer – Mignon verlangende naar haar vaderland (1839), detalhe.
(2) Ary Scheffer – Mignon Verlangende naar de hemel (1851), detalhe.
Segundo o Dordrechts Museum, onde as duas obras estão expostas, as “Mignon” foram inspiradas em “Wilhelm Meister’s Lehrjahre”, livro de Goethe.

Ary Scheffer, Cornélia Marjolin
©I. ANDREANI/PMVP

Ary Scheffer, Portret van Cornelia met hond (1840)
Alguns links:
Dordrechts Museum, Ary Scheffer
Ary Scheffer, Mignon verlangende naar haar vaderland (1839)
Ary Scheffer, Mignon verlangende naar de hemel (1851)
Ary Scheffer, De hemelse en aardse liefde (1850) – repare no *rosto* de Venus
