Desde o ano 2000, com o objetivo de fomentar o apoio aos poetas jovens, volver ao encantamento da oralidade e restabelecer o diálogo entre a poesia e as demais artes, a UNESCO celebra em 21 de março o Dia Mundial da Poesia com diversos atos em todo o mundo.
Este site participa com o poema de Mário Quintana “Aula inaugural” que apresenta a poesia como defesa contra a angústia de viver e diz: “Fora da poesia, não há salvação”.
AULA INAUGURAL
Mário Quintana (1906-1994)
É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis como na guerra do Paraguai…
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia, não há salvação.
A poesia é dança e a dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E,
Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança.
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante de tua cova.
Tece coroas de rimas…
Enquanto o poema não termina
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas…)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas…)
Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta.
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo de teus pés,
Deixa rugir o Caos atônito…
Mário Quintana, Apontamentos de história sobrenatural. Porto Alegre: Globo, 1975, p.24-25.
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