Aprendendo a Aprender


Ingmar Bergman (1918-2007)
31 Julho 2007, 12:06 pm
Arquivado em: *Isabela*, Cinema

Em Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957), de Ingmar Bergman, Agda (Jullan Kindahl) é a empregada do professor Isak Borg (Victor Sjöström). Quarenta anos trabalhando para a família e quando o velho Isak fica só é ela quem toma conta da casa e dele. E ele reconhece: “Ninguém arruma a mala como você, Agda.” Apesar da aparente rabugice, ela é um doce e faz jus ao nome: Agda vem do grego e significa boa. Quem não gostaria de ter uma Agda em sua vida? Eu estou na fila.

Boa Agda foi um post que publiquei a algum tempo em meu antigo blog e que republico agora em homenagem ao mestre Ingmar Bergman que morreu ontem.

O trabalho de Bergman não é de auto-ajuda, mas sempre me desperta o desejo de ser uma pessoa melhor. Gritos e sussurros (Viskningar Och Rop, 1972), por exemplo, como abriu minha alma à compaixão! Já Morangos silvestres (1957) me fez ver a beleza da amizade que independe de palavras bonitas, de frases bem elaboradas, mas que está ligada a atitudes singelas como fazer uma mala, levantar para fazer o café, interessar-se pelo bem-estar do outro ou ao menos ouvir.

Em Sonata de Outono - Höstsonaten, 1978 - adoro os diálogos de Eva (Liv Ullmann) e Viktor (Halvar Björk) seu marido (e as pequenas estantes de madeira de sua casa, imagine) e gostaria de entabular diálogos assim.



Gluck: Dance of the Blessed Spirits
24 Julho 2007, 3:47 pm
Arquivado em: *Isabela*, Clássicos, Música, Pinturas

William Blake - Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing - Tate Gallery - Londres

Trago a interpretação do magnífico Jean-Pierre Rampal com a Philadelphia Orchestra e regência de Eugene Ormandy para A dança dos espíritos abençoados que faz parte da ópera Orfeu ed Euridice de Christoph Willibald Gluck (1714 - 1787) mas que me remete mais ao trabalho de William Blake (1757-1827) acima Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing — inspirado na obra de Shakespeare Midsummer-Night’s Dream — e que está na Tate Gallery de Londres.

A música casa com a imagem, ou não?



WEBiar Humanum Est - Nicanor Parra
12 Julho 2007, 12:00 am
Arquivado em: *Isabela*, Español, Poesia

Parragua

O excelente poeta chileno Nicanor Parra e seu parragua (guarda-chuva em espanhol é paraguas), por isso o trocadilho com seu apellido (sobrenome). Ele tem site: visite seus poemas e criações. Vale a pena.

Por falar em paraguas, se Aquarela de Toquinho e Vinicius fosse em espanhol, veja como ficaria engraçada:

En una hoja cualquier yo dibujo un sol amarillo
Y con cinco o seis líneas es fácil hacer un castillo
Corro el lápiz alrededor de la mano y me doy un guante
Y se hago llover con dos trazos tengo un paraguas

Mas, retornando a Parra, sabia que há muito ele já falava em natureza com a conotação de meio-ambiente em seus poemas? Confira. Vai ver que nem só de Pablo Neruda e Isabel Allende vive o Chile.



Sobre livros e leitura
9 Julho 2007, 12:02 pm
Arquivado em: *Isabela*, Filosofia, Leituras

Autor: Arthur Schopenhauer
Tradução: Phillippe Humblé e Walter Carlos Costa
Fonte: Ateus.net

Seria bom comprar livros se pudéssemos comprar também o tempo para lê-los, mas, em geral, se confunde a compra de livros com a apropriação de seu conteúdo.
[...] Todo livro minimamente importante deveria se lido de imediato duas vezes, em parte porque na segunda compreendemos melhor as coisas em seu conjunto e só entendemos bem o começo quando conhecemos o fim; em parte porque, para todos os efeitos, na segunda vez abordamos cada passagem com um ânimo e estado de espírito diferentes do que tínhamos na primeira, o que resulta em uma impressão diferente e é como se olhássemos um objeto sob uma outra luz.

SCHOPENHAUER, Arthur. Über Lesen und Bücher, capítulo 24 de Parerga und Paralipomena (1851). Sobre Livros e Leitura foi originalmente publicado em edição bilíngüe pela Editora Paraula, em 1993, com reimpressão em 1994.



Envelhecer para James Lovelock
6 Julho 2007, 12:00 am
Arquivado em: *Isabela*, Leituras, Velhice

Envelhecer não é tão ruim como às vezes se imagina. Na minha adolescência, eu achava que, na idade atual [Lovelock nasceu em 1919, portanto tinha 87 anos quando publicou o livro em 2006], estaria fraco, deprimido e meio senil. Algumas dessas premonições se concretizaram, mas não todas, e embora eu consiga andar e subir uma encosta leve a seis quilômetros por hora, caminhar nessa velocidade nas montanhas já não é mais possível. Mas aprendi que a vida se renova a cada década. No meu caso, ela reiniciou a cada década a partir dos meus vinte anos. À semelhança da borboleta, os longos anos como larva e, depois, como pupa terminaram, e como disse a poetisa Edna St Vincent Millay:

My candle burns at both ends;
It will not last the night;
But, ah, my foes, and oh, my friends –
It gives a lovely light.*

*”Minha vela queima nas duas pontas; / A noite toda não vai durar; / Mas ah, meus inimigos, e oh, meus amigos - / Que bela luz ela dá!”

Texto extraído do mais novo livro de James Lovelock, A vingança de Gaia, p. 53, Ed. Intrínseca, 2006.

James Lovelock



Que boa semana televisiva!
4 Julho 2007, 11:33 pm
Arquivado em: *Isabela*, Cinema, John Gray, TV

Primeiro foi Rilke & Rodin (2006) de Bernard Malaterre com Jacques Bondoux e Cyril Descours no Eurochannel: documentário dramático de um Rainer jovem, curioso, desejoso de aprender com o mestre Rodin, como ele o chamava. Em 1902 o ainda desconhecido Rainer Maria Rilke vai a Paris para escrever sobre o já famoso René-François-Auguste Rodin. Rilke o coloca num pedestal. Lembro que, quando garota, li de Myrtes Mathias: “Não se endeusam os homens. Um dia o ídolo cai do seu altar.” Acho que Rilke sentiu isso na pele. Mas veja quanta graça e beleza no que ele diz a Rodin: “ao redor do meu coração tem um silêncio profundo onde suas palavras são erguidas como estátuas” e “sua bondade é uma ave branca que voa ao meu redor antes de pousar no meu ombro”. Rodin, por sua vez, apresenta e justifica uma arte desenvolvida com esforço: “a única forma de alcançar a arte é com o trabalho”, diz. Sobre essa idéia de arte valorizada pelo trabalho, Adorno & Horkheimer escreveram em Dialética do Esclarecimento:

Platão baniu a poesia com o mesmo gesto com que o positivismo baniu a doutrina das Idéias. Com sua arte celebrada, Homero, segundo se diz, não levou a cabo nem reformas públicas nem privadas, não ganhou nenhuma guerra nem fez nenhuma invenção. Não sabemos, diz-se, da existência de numerosos seguidores que o tenham honrado ou amado. A arte teria, primeiro, que mostrar a sua utilidade [...]. Mesmo na distância renunciadora da vida, enquanto arte, ele permanece desonroso; as pessoas que o praticam tornam-se vagabundos, nômades sobreviventes que não encontram pátria entre os que se tornaram sedentários. A natureza não deve mais ser influenciada pela assimilação, mas deve ser dominada pelo trabalho (Grifos meus).

Rilke & Rodin (2006)

A quem se interessar, aqui as datas e horários quando o Eurochannel reexibirá o documentário: 05/07-04:00 05/07-22:30 06/07-11:00 13/07-06:00 15/07-01:30 23/07-00:00 31/07-22:00 01/08-09:00 04/08-07:00 11/08-10:30 15/08-02:00 15/08-17:30.

O Eurochannel também exibiu Mademoiselle Gigi (2005) de Caroline Huppert com Juliette Lamboley, Macha Méril, Françoise Fabian, Alexis Loret. O filme tem boa trilha sonora, com chansons francesas. Coincidentemente, ontem o canal TCM exibiu a versão da novela de Collete, o musical de Vicente Minelli de 1958. As datas em que o drama de Huppert será reexibido pelo Eurochannel, até o final do mês de agosto: 19/07-00:00 20/07-07:00 29/07-04:00 29/07-22:00 30/07-11:00 06/08-00:00 06/08-18:00 18/08-00:30 19/08-07:00 29/08-04:00 29/08-22:00 30/08-11:00.

Mademoiselle Gigi (2005)

Para coroar a semana, o canal Globo News reexibiu a entrevista feita com o filósofo John Gray (por favor, não é o John Gray de livros de auto-ajuda e de O segredo) em 2006 para o Milênio. Na entrevista John Gray reafirma que a crença no progresso é uma ilusão. Diz que o saber é a melhor ferramenta dos homens mas pode escravizá-los. Fala que o conhecimento não altera a natureza humana, ou seja, em decorrência os homens não terão mais sabedoria, bom-senso, autoconhecimento, humildade… Tudo o que o conhecimento provoca é poder. Poder, e não controle sobre a natureza. Muito bom.

E inspirada pela frase de Rilke, trago de Aquilino Ribeiro, Lápides Partidas, c. 10, p. 249, ed. 1945:

Pousam (as pombas) no chafariz e então me digo que o chafariz foi feito para elas, concebido por uma alma engenhosa de naturalista de modo a fornecer-lhes um ponto de apoio especioso em seus voejos.

Voejos… bonita palavra!



Efeito contrário
1 Julho 2007, 1:00 pm
Arquivado em: *Isabela*, Consumo, Marketing e Propaganda

Fazendo supermercado, fui pegar uma caixa do tradicional Bis, waffer com cobertura de chocolate da Lacta mas, reparando melhor na gôndola, vi o que me pareceu ser sua imitação, o Sem Parar da Nestlé. A Nestlé é uma boa marca e talvez esse Sem Parar seja bom, pensei. Peguei uma caixa – vermelha, oposta ao azul do produto da Lacta — maior que a do Bis e por isso imaginei que conteria mais unidades. Isso ainda não sei, pois procurei na embalagem e não vi discriminação da quantidade (no caso do Bis são vinte unidades por caixa). Quanto ao peso líquido é menor: 120g contra os 140g da caixa do Bis. Então, por quê a caixa maior?

Fiquei um tanto decepcionada com a Nestlé por procurar chamar a atenção dessa forma. Pequenas atitudes fazem uma grande empresa ou apenas o lucro e a competição é que importam? Uma empresa como a Nestlé precisa recorrer a estratégias como esta para atrair mais consumidores?

Não sou fã de acúcar, por isso dificilmente compro doces e biscoitos e isso foi o pretexto para não levar nenhum dos dois produtos. O efeito do marketing foi contrário para mim.