Aprendendo a Aprender


Supérfluo essencial
30 Outubro 2006, 1:26 am
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O que é um usado novo?
Modesto convencido
ele sério sorriu (1):
Um oximoro.
(Sem acento, viu?)

Também são
uma covarde valentia (2),
um contentamento descontente (3)
e uma inocente culpa (4).

Tudo incerto, tudo certo (1).

(1) Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas, p. 156
(2) Almeida Garrett, Frei Luís de Souza, p. 47
(3) Luís de Camões, do soneto Amor é fogo que arde sem se ver
(4) Cecília Meireles, Obra poética, p. 487

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Travessia de verão
26 Outubro 2006, 12:00 am
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Ela sentiu um martelar no coração, uma sensaçao de perigo, os talheres se sacudiram ostensivamente, e uma rodela de limão, prestes a ser espremida entre os dedos de Grady, imobilizou-se: ela relanceou depressa os olhos da irmã para ver se havia ali algo que fosse mais astuto do que estúpido. Satisfeita, terminou de espremer o limão no chá. (p. 13)

Dentre as muitas magias que há, uma delas é olhar um ser amado dormindo: a salvo dos olhos e da consciência, por um delicioso instante tem-se nas mãos sua parte mais íntima; indefeso, ele nesse instante é tudo, por mais irracional que fosse, que sempre se teve a certeza de que seria, puro como um homem, terno como uma criança. (p.31)

Trechos de Travessia de verão — um dos primeiros trabalhos de Truman Capote — e que já revelavam seu estilo. No posfácio do livro, seu advogado disse que “embora não seja uma obra refinada, o romance reflete claramente o surgimento de uma voz original e de um prosista surpreendentemente talentoso”.

Capote abandonou o original em um antigo apartamento que morou e chegou a dizer que o tinha destruído. Recém-descoberto, no Brasil foi publicado pela Alfaguara, selo da Editora Objetiva.

Neste link a Objetiva disponibilizou o primeiro capítulo de Travessia de verão em PDF. Dê uma olhada.

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Substantivo brasileiro
18 Outubro 2006, 12:00 am
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Um político corrupto morre, mas suborna o diabo que conduzia sua alma ao inferno e pega um atalho para o céu. Ao chegar próximo à entrada, avista São Pedro e um sujeito magro, de bigode, chapéu e óculos encostados a uma porta de ouro. O homem, com sotaque português, recita um poema para Santo que parece extasiado, enquanto ouve:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

O político corrupto interrompe e pede licença a São Pedro para se juntar a eles. “Também adoro Fernando Pessoa”, diz para agradar. O ex-papa o repele: “Você não deveria estar aqui, este não é o seu lugar”. Mas PC (iniciais de político corrupto) tenta suborná-lo: “Olhe, tenho muitos dólares na cueca”. O santo se aborrece, chama um segurança e o manda descer com o político corrupto, levá-lo aos quintos dos infernos.

Assim que o intruso é afastado, o português retoma seu poema e pergunta:

Valeu a pena?

O político corrupto ouve e pensa que é com ele, então se vira e responde:

Tudo vale a pena
Se a mamata não é pequena.

Antimoral da história: nem a caminho do inferno um legítimo político corrupto se arrepende.

Substantivo genuinamente brasileiro, “mamata” significa “empresa ou administração pública em que mamam os políticos e funcionários desonestos” e é sinônimo de “negociata, papata e comedeira”. (Dicionário Novo Aurelio — Século XXI)

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Saindo de férias
17 Outubro 2006, 12:07 pm
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A coisa está pegando fogo no país que enfrentou o tsunami e que tem esta bandeira tão bonita: o Sri Lanka. Mais de cem pessoas morreram, entre civis e militares, e cerca de 150 estão feridas devido a um atentado suicida. Segundo a BBCBrasil, alguns dos marinheiros mortos estavam saindo de férias depois de servir na região do conflito entre governo e rebeldes.



Passando a vista
10 Outubro 2006, 3:07 pm
Arquivado em: *Isabela*, Leituras

A imagem acima foi retirada de uma propaganda da Siemens e me lembra a seguinte frase de Régis Debray: “Nossa vida cotidiana ativa e desativa as conexões do visível e mudamos de vista como se muda de velocidade”.

Lembro também que Román Gubern em Del bisonte a la realidad virtual (La escena y el laberinto) observa que “o crescimento da rede ferroviária permitiu a generalização da percepção do espaço em movimento deslizante e intensificou as estratégias perceptivas para captar o instante visual, que a fotografia chegaria a congelar a finais do século com seus instantâneos. O desenvolvimento de nossa iconosfera cresceu paralelamente ao incremento das taxas de velocidade na vida urbana. Se estima, por exemplo, que na época de Lautrec um pedestre observava um anúncio por cerca de vinte segundos, no entanto, em 1960 se calculava que sua atenção não superava os dois segundos” (tradução minha).

E hoje?

Em O olhar do estrangeiro excelente capítulo que faz parte do livro O olhar (vários autores) publicado pela Companhia das Letras, Nelson Brissac Peixoto dá algumas pistas:

(…) Um mundo onde tudo é produzido para ser visto, onde tudo se mostra ao olhar, coloca necessariamente o ver como um problema. Aqui não existem mais véus nem mistérios. Vivemos no universo da sobreexposição e da obscenidade, saturado de clichês, onde a banalização e a descartabilidade das coisas e imagens foi levada ao extremo. Como olhar quando tudo ficou indistinguível, quando tudo parece a mesma coisa? (…)

Mudanças na estrutura urbana, na arquitetura, nos meios de comunicação e transporte viriam alterar profundamente a própria constituição da realidade. Hoje o real é ele mesmo uma questão. As autopistas de alta velocidade — além da informatização — transformam por completo o perfil das grandes cidades e portanto a nossa experiência e nossa maneira de ver. O indivíduo contemporâneo é em primeiro lugar um passageiro metropolitano: em permanente movimento, cada vez para mais longe, cada vez mais rápido. Esta crescente velocidade determinaria não só o olhar mas sobretudo o modo pelo qual a própria cidade, e todas as outras coisas, se apresentam a nós.

A velocidade provoca, para aquele que avança num veículo, um achatamento da paisagem. Quanto mais rápido o movimento, menos profundidade as coisas têm, mais chapadas ficam, como se estivessem contra um muro, contra uma tela. A cidade contemporânea corresponderia a este novo olhar. Os seus prédios e habitantes passariam pelo mesmo processo de superficialização, a paisagem urbana se confundindo com outdoors. O mundo se converte num cenário, os indivíduos em personagens. Cidade-cinema. Tudo é imagem.

As cidades tradicionais, ao contrário, eram feitas para serem vistas de perto, alguém que andava devagar e podia observar os detalhes das coisas. Um prédio feito para ser observado por quem passa na calçada, a pé, pode ser ornamentado. É através de suas formas arquitetônicas que ele nos diz o que ele é. Um topo recortado nos sugere um castelo medieval, marquises decoradas remetem a uma estrutura futurista. A arquitetura tradicional constrói a representação.

O caminhar lento surgiu na filosofia e na poesia com a figura do flaneur. Personagem do final do século XIX, era o indivíduo que vivia na rua como se estivesse em casa, fazendo dos cafés a sua sala de visitas e das bancas de jornal a sua biblioteca. Este homem ainda podia se pretender um olhar capaz de captar as coisas como elas eram. O seu olhar era correspondido. Num poema de Baudelaire, “A Passante”, esta experiência aparece no seu momento terminal. O poeta está caminhando em meio à multidão quando, de repente, por um breve instante, o olhar dele se encontra com o de uma linda mulher, vindo no sentido contrário. Neste instante de êxtase, verdadeira iluminação, ele se viu refletido no olhar dela. O poeta, surpreendido, fica imobilizado e, ao se voltar, ela já tinha desaparecido na multidão. Essa crescente dificuldade em se reconhecer nos objetos e nos outros, que atravessa toda a obra de W. Benjamin, introduzia a problemática de um olhar que possa ser correspondido, de um olhar nos olhos.

Na cidade do movimento, ao contrário, a arquitetura, sob o impacto da velocidade, perde espessura. A construção tende a virar só fachada, painel liso onde são fixados inscrições e elementos decorativos, para serem vistos por quem passa correndo pela auto-estrada. Ocorre uma superficialização do prédio: por trás da fachada, ele é um simples galpão igual a todos os outros. Toda a arquitetura pós-moderna consiste nesta transformação do prédio em mural, em letreiro, em tela. Painéis luminosos que reproduzem castelos medievais ou haciendas mexicanas. Em vez de se construir a representação, se representa a construção.

Aqui tudo é linguagem, signo. Daí a hiper-realidade em que parece ter-se constituído a nossa realidade. Tradicionalmente, o pensamento ocidental fundou-se no princípio da representação: as imagens e os conceitos serviam para representar algo que lhes era exterior. Com a generalização da imagem, porém, o próprio princípio de representação deixa de funcionar. As imagens passaram a constituir elas próprias a realidade. Não se pode mais trabalhar com o conceito tradicional de representaçãso, quando a própria noção de realidade contém no seu interior o que deveria representá-la. Torna-se difícil distinguir o que é real e o que não é. Neste universo feito de imagens, o real não tem mais origem nem realidade. Daí a sensação corrente de que estas fachadas ocultem um mundo verdadeiro que estaria por trás. Mas não há nada lá. Tudo só existe na superfície sem fundo da imagem.

Com esta proliferação das imagens, entramos na era da produção do real. Aquilo que era pressuposto do olhar é agora o seu resultado. Não há mais distinção entre realidade e artifício, entre experiência e ficção, entre história e estórias. Nossa identidade e lugar são constituídos a partir de um imaginário e uma iconografia criados pela indústria cultural. Essa mediascape é a realidade onde os indivíduos hoje vivem.

Neste mundo de personagens e cenários, tudo é imagerie. Tem a consistência de mito e imagem. A cultura contemporânea é de segunda geração, onde a história, a experiência e os anseios de cada um são moldados pela literatura, os quadrinhos, o cinema e a tv. Vidas em segundo grau. Todas estas histórias já foram vistas, todos estes lugares visitados.

Mas esta transformação de tudo em imagem acarreta a sua permanente reciclagem. Tudo parece remake. A repetição ao infinito banaliza as imagens, transformando-as em clichês. É como se a cultura contemporânea estivesse liquidando o seu estoque. O pós-modernismo parece estar se encaminhando para o impasse. Somos ainda capazes de ver através desta mitologia esvaziada de todo significado pela repetição? (…)

Veja de novo a imagem da moça no trem: É como se ela não estivesse vendo nada, as coisas estão passando rapidamente e seu olhar é de quem está longe, como se estivesse sonhando acordada. E, de fato, a propaganda da Siemens diz:

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Um canto abrasador
6 Outubro 2006, 11:22 am
Arquivado em: *Isabela*, Variedades

Glória ao Senhor é um dos hinos do Cantor Cristão. Sua versão é de Antônio José dos Santos Neves (1827-1874), “funcionário público, um dos primeiros membros da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, colaborador do jornal Imprensa Evangélica, poeta e autor de hinos evangélicos” (foto ao lado) para nada mais, nada menos que God save the King/Queen, o Hino Nacional Britânico. Ouça o British National Anthem enquanto acompanha a letra de Glória ao Senhor:

A nosso Pai do céu, tributa lábio meu
Glória e louvor!
A quem seu Filho deu, o qual por nós morreu!
A quem me prostro eu; glória ao Senhor!

Louvemos ao Senhor, o santo Redentor,
O Rei Jesus!
Sua morte me remiu, a mim tão pecador,
E assim o céu me abriu; glória a Jesus!

Espírito de Deus, mandado por Jesus,
Louvor a Ti!
De Cristo o grande amor, revela, Instruidor!
Sê meu renovador; louvor a Ti!

Louvemos com ardor, com gozo e com fervor
O trino Deus!
Eternamente ali, em canto abrasador,
Trindade santa, a Ti louvor nos céus!

P.S.: O último trecho é bem quente: ardor, fervor e abrasador.

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Eleições
1 Outubro 2006, 10:24 am
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Retirada de Dialética do esclarecimento (Adorno e Horkheimer), escrito nos anos 1940 num cenário de guerra e pós-guerra, e que hoje reflete o que muitos eleitores brasileiros sentem ao sair para votar:

O princípio da filosofia liberal era: Não apenas — Mas também. Hoje parece vigorar o Ou — Ou, mas como se o pior já houvesse sido escolhido.

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