Ele é antropólogo e naturalista, vive viajando e conhecendo outras culturas. Quando veio visitar uma aldeia no Brasil, tirou incontáveis fotos, fez milhares de perguntas e muitas anotações no caderninho de campo, como é de praxe. Até que, por fim, quis uma foto sua entre os índios. Todos esperando, enquanto ele enquadrava o foco e preparava o disparador automático da máquina…
Então ele correu, correu porque tinha dez segundos para se inserir no grupo. Os índios, desconfiados que são, quando viram aquele gringão de braços abertos e sorriso de orelha a orelha, correndo pro lado deles e falando alto “smile, smile”, sem entender o que se passava, não contaram história e debandaram. Quem vai ficar? Quem é besta? Resultado: foto sui generis de índio dando no pé. Imagine a cena.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar do sentimento deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus próprios pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Encontrei esta pérola de Fernando Pessoa no livro Cachorros de palha – reflexões sobre humanos e outros animais, de John Gray.
No livro Os filhos da Candinha, o escritor Mário de Andrade diz:
É por causa do meu engraxate que ando agora em plena desolação. Meu engraxate me deixou. Passei duas vezes pela porta onde ele trabalhava e nada. Então me inquietei, não sei que doenças mortíferas, que mudança pra outras portas se pensaram em mim, resolvi perguntar ao menino que trabalhava na outra cadeira. O menino é um retalho de hungarês, cara de infeliz, não dá simpatia alguma. E tímido, o que torna instintivamente a gente muito combinado com o universo no propósito de desgraçar esses desgraçados de nascença. “Está vendendo bilhete de loteria”, respondeu antipático me deixando numa perplexidade penosíssima: pronto! Estava sem engraxate! Os olhos do menino chispeavam ávidos, porque sou dos que ficam fregueses e dão gorjeta. Levei seguramente um minuto pra definir que tinha de continuar engraxando sapatos toda a vida minha e ali estava um menino que, a gente ensinando, podia ficar engraxate bom.
Desolado e inquieto porque não encontrou seu engraxate… que coisa!
É difícil — principalmente para quem nasceu há duas ou três décadas — compreender toda essa perplexidade, pois, quem precisa de um engraxate hoje em dia? Sapatos de camurça, de couro sem ser encerado, tênis e sapatênis são limpos de vez em quando e há quem nunca os lave. Sim, se há! Assim, o menino engraxate se tornou figura em extinção. Mas, há anos atrás, qualquer moleque que quisesse começar a trabalhar cedo tinha, como primeira opção, ser engraxate. Fazia um caixote de madeira, comprava o material com algum dinheiro poupado e já tinha uma profissão, muito concorrida, por sinal, porque havia demanda.
“Pronto! Estava sem engraxate! …E tinha de continuar engraxando sapatos toda a vida minha”.
Necessidades que criamos para nós mesmos e que causam tamanha dependência que é difícil, custoso, não tê-las. Hoje temos outras — principalmente tecnológicas — e não imaginamos como viver sem elas.
Digitei no Google “não vivo sem” e apareceu um link para o blog do Sergio Lopes que disse: “Eu não vivo sem as abas do Firefox; chega de ficar abrindo um milhão de janelas enquanto navego! Eu não vivo sem as abas do Gaim; uma tela pra cada conversa é coisa de louco! Eu não vivo sem as abas do Eclipse! Eu não vivo sem as abas do meu aterm (multi-aterm); descobri o multi-aterm hoje pra suprir o abandono do gnome-terminal (não vivo sem abas no terminal!!). Talvez seja por tudo isso que eu me incomodo quando vou usar o Gimp. Aquele monte de janelas realmente me irrita.”
Em outros links: não vivo sem livros, cds e minha esposa ou seja, sexo, drogas e rock in roll; não vivo sem cliente, sem chocolate, sem musculação, não durmo e não vivo mais sem o barulho do ar condicionado, não vivo sem um docinho após o almoço, não vivo sem RSS — não vivo mesmo; não vivo sem Firefox e Google; e um recado para Lush Times: “não deixem de fabricar esse shampoo, eu não vivo sem ele, tenho até estoque para mim e para minha irmã…”; não vivo sem Trident, não vivo sem creme para as mãos, batom e rímel; não vivo sem papel toalha e álcool em gel, não vivo sem internet, não vivo sem minhas placas militares, não vivo sem uma bolsinha rosa pink, não vivo sem celular e salto alto, não vivo sem celular e lápis de olho, celular e anel, celular, celular, celular…
Ainda sobre não compreender certas reações em outras épocas, recordo o quanto foi interessante saber do espanto e juízos pitorescos das pessoas no fim do século XIX quando tiveram a experiência de visualizar movimentos longitudinais, como o assombro ante a locomotiva que avançava até a câmera (quer dizer até aos espectadores na sala) nas primeiras projeções dos Lumière, pois isso era algo jamais visto na cultura da imagem precedente. Li sobre isso num texto de Román Gubern. Inclusive, ele também fala de um repórter que, de certa forma, pirou e começou a ver cores nas imagens, elogiando isso em um artigo.
Ouvindo Crazy She Calls Me (de Carl Sigman e Bob Russell). Interpretação despretensiosa, que evoca certa melancolia. A introdução, meio camerística, não me agrada muito — tanto que dei uma editada e a removi, certa vez — mas o solo de trompete é bom.
É Chet Baker, do disco Chet for Lovers.
E já se foram quase dezoito anos que, numa sexta-feira 13, ele saltou, foi empurrado ou caiu acidentalmente da sacada do hotel onde estava hospedado em Amsterdam.
Tinha uma forma de tocar com tempos lentos, sem muito volume, fugindo — ou melhor — evitando os agudos, principalmente depois que lhe quebraram vários dentes em uma briga e perdeu a embocadura.
Esse era seu jeito… Para alguns, cool e, para Miles Davis, um patético simulacro. Há quem afirme que os dois tinham um estilo parecido mas, mesmo no disco que gravaram juntos percebo sem dificuldades quando um ou outro faz o solo. E gosto de ambos, embora prefira não compará-los. Para mim, a única interseção entre eles é o trompete.
A mesma ameaça, sempre:
– Vou cuspir. Se o cuspe secar e você não chegar… vai apanhar!
E lá ia ela, correndo, com suas canelas de pife, comprar na venda alguma coisa que estivesse faltando em casa: óleo, açúcar, café…
– Cheguei. Boto aonde?
– Guarde na cantaleira.
Todas as tardes ia vender, em frente à padaria, os queijos que sua mãe produzia. Não deixa de ser uma estratégia de Marketing — que não sei se ainda faz uso daquela história dos quatro pês: preço, produto, promoção e ponto de venda. Quem vai comprar pão, de repente, também pode passar na barraquinha e levar queijo para não ficar no pão com ôxe. Sabe como é, né? A criatura abre o pão, não vê NADA dentro e diz: “ôxe!”
Esperta, essa menina. Fez amizade com um rapazinho funcionário da padaria e, todos os dias, faziam a seguinte troca: ele trazia um pão e ela lhe dava um pedaço de queijo. O amigo pegava um pão e colocava a fatia de queijo da troca. Ela, por sua vez, pegava uma fatia de queijo e colocava no pão. Já era o lanche da tarde (de ambos). Devido a este escambo passaram a dizer que estavam namorando…
Na escola, gostava de copiar versos. A professora explicando e ela nem aí… Às vezes, quando estava inspirada, também criava:
Magali é o meu nome
moreninha minha cor
Flamengo é o meu time
e César meu amor.
E mais…
I de igreja
A de altar
C de César
com que irei me casar.
E mais, ainda…
Gosto de leite porque é branquinho
Gosto de café porque…
– Magali!
– Senhora, professora!
– Agora não é hora de copiar, mas de prestar atenção.
Um dia, quando voltava da venda, seu chinelo torou. Lugar pequeno, todo mundo se conhece.
– Quer um dos meus emprestado pra você não pisar descalça no chão quente?
Quando chega em casa, toma uma ruma de havaianadas nas costas…
– Não quero filha minha com nada emprestado! Vá devolver agora, descalça, pra aprender! Vou cuspir…
E lá ia a menina, correndo, com suas canelas de sabiá…
* * *
Pife – pífaro
Cantaleira – cristaleira
Venda – mercearia
